Jackson Cionek
6 Views

Democracia de Quorum Sensing Humano: outra forma de decidir em sociedade

Democracia de Quorum Sensing Humano: outra forma de decidir em sociedade

Quando eu observo grupos vivos – bactérias, peixes, abelhas, bandos de pássaros, equipes humanas – eu vejo sempre o mesmo mistério aparecendo:
não existe um “chefe absoluto”, mas o grupo inteiro parece saber a hora de mudar de direção.
Na biologia, isso às vezes é chamado de quorum sensing (bactérias, insetos, peixes) ou de comportamento de enxame / swarm (bandos, cardumes, formigueiros).
No meu vocabulário, quando eu trago isso para os humanos, eu falo de Quorum Sensing Humano (QSH):
é quando muitos corpos, num mesmo bioma, sentem ao mesmo tempo que “assim não dá mais” – ou que “é por aqui” – e transformam esse sentir em ação coletiva.
Eu quero pensar a democracia a partir daí:
não como contagem fria de opiniões individuais a cada quatro anos, mas como ciência e arte de ouvir e organizar o Quorum Sensing Humano de um território.


O foco deste texto

De tudo que dá pra falar sobre democracia, participação, voto, partidos e sistemas, eu escolho um ponto só:
Uma democracia de Quorum Sensing Humano é aquela que desenha instituições para captar o momento em que um bioma social inteiro sente a mesma coisa – e transforma esse sentir em decisão vinculante, não em ruído de redes sociais.
Ou seja:
  • em vez de tratar as pessoas como unidades isoladas que “opinavam” sozinhas,

  • eu passo a enxergar corpos em relação, com Mentes Damasianas conectadas, capazes de gerar inteligência coletiva real.




Como a natureza já faz isso: quóruns em bactérias, peixes, abelhas e bandos

Na biologia, quorum sensing é um mecanismo em que organismos simples (como bactérias) liberam sinais químicos no ambiente. Quando a concentração desses sinais passa de um certo limiar, o grupo inteiro muda de comportamento – por exemplo, aciona genes de virulência, forma biofilmes ou muda de estágio de vida.
Em peixes e abelhas, algo parecido acontece de forma comportamental:
  • em cardumes, peixes podem usar “respostas de quórum”: quando um número suficiente escolhe um caminho, os outros seguem, resultando em decisões mais precisas do que um indivíduo sozinho.

  • em enxames de abelhas à procura de nova colmeia, diferentes grupos de exploradoras “votam” em possíveis locais; quando os sinais a favor de um lugar chegam a um limite, todo o enxame se move pra lá.

Nos bandos de estorninhos, vemos murmurações: movimentos coletivos lindos e altamente coordenados, emergindo de regras muito simples (manter distância, alinhar direção, não colidir). Não há “chefe”; há auto-organização.
Estudos de swarm intelligence e comportamento coletivo mostram que:
  • grupos podem tomar decisões melhores que indivíduos isolados;

  • liderança pode ser flexível, emergindo de quem tem melhor informação em cada momento;

  • quóruns e simples regras locais podem gerar respostas rápidas e adaptativas.

Quando eu olho para isso, eu não quero copiar abelhas nem peixes.
Mas eu quero aprender o princípio:
grupos vivos tomam boas decisões quando conseguem acumular sinais locais até um limiar e, então, alinhar ação sem depender de um chefe fixo.


QSH, Mente Damasiana e cérebros em sincronia

Agora eu trago isso pro humano.
Na minha linguagem, o Quorum Sensing Humano aparece quando:
  • muitas Mentes Damasianas – interocepções e propriocepções – começam a sentir coisas parecidas:

    • “não aguento mais esse calor”,

    • “não dá pra viver sem água”,

    • “ninguém nos ouve”,

    • “é agora ou nunca”;

  • esses sentimentos viram Eus Tensionais coletivos: padrões de postura, emoção, discurso;

  • e, de repente, o grupo passa de murmúrio a praça cheia, de conversa sussurrada a movimento organizado.

A neurociência social começa a enxergar isso por dentro:
  • estudos de inter-brain synchrony mostram que, quando pessoas colaboram, conversam com empatia ou tomam decisões juntas, a atividade cerebral tende a se sincronizar em ritmos específicos.

  • pesquisas com equipes indicam que maior sincronia entre cérebros está associada a melhor desempenho coletivo, mais confiança e decisões mais eficazes.

  • revisões comparativas sobre decisão social no cérebro mostram que cooperação, empatia e coordenação são capacidades profundamente enraizadas em nossa biologia, não “luxos culturais”.

Autores que estudam inteligência coletiva humana também mostram que:
  • grupos não são apenas somas de indivíduos;

  • há propriedades emergentes – padrões de comunicação, confiança, distribuição de fala – que aumentam ou destroem a capacidade coletiva de resolver problemas.

Quando eu junto tudo isso com meus conceitos, eu vejo assim:
  • QSH é quando vários Eus Tensionais, em Zona 2, se alinham em torno de uma pauta e de um sentimento;

  • Jiwasa é o nome desse “nós” ampliado, que não apaga o eu, mas o insere num corpo maior;

  • a democracia de QSH precisa criar condições para essa sincronia saudável:

    • tempo,

    • segurança psicológica,

    • diversidade,

    • acesso à informação de qualidade,

    • e biomas que não estejam em colapso.




O problema das democracias que só contam cabeças

A forma dominante de democracia, hoje, faz uma coisa muito limitada:
  • pergunta individualmente o que cada pessoa “acha”,

  • soma os votos,

  • entrega o poder a quem teve maioria naquele momento,

  • e depois fecha a porta da decisão por anos.

Do ponto de vista de teoria da decisão, já existem trabalhos mostrando que:
  • voto majoritário simples nem sempre é a melhor forma de combinar informações dispersas;

  • quóruns, pesos diferentes, sucessivas rodadas de deliberação e regras mais sofisticadas podem gerar decisões mais corretas, mais estáveis e menos injustas em vários cenários.

Do ponto de vista da Mente Damasiana:
  • esse modelo trata cada corpo como se ele existisse isolado,

  • ignora sincronia, empatia, aprendizado coletivo,

  • transforma o momento mais importante da democracia (decidir) numa reação rápida a campanhas, medos e narrativas dos 01s.

Não é à toa que tantas democracias vivem hoje:
  • fadiga cívica,

  • sensação de que “tanto faz em quem eu voto”,

  • e explosões repentinas de protesto, que a estrutura institucional não sabe como acolher.

É QSH sem canal: o corpo social sente, grita, ocupa, e o sistema só sabe responder com repressão ou marketing.


Democracia de QSH: quando o “nós” decide com método

Para mim, Democracia de Quorum Sensing Humano não é slogan.
É um desenho institucional que parte de três princípios:
  1. O sentir compartilhado é dado legítimo.
    A experiência em primeira pessoa de quem mora no território – dor, medo, esperança, cansaço – deve entrar no processo de decisão como informação válida, ao lado de dados técnicos.

  2. A deliberação é fisiológica.
    Pessoas precisam de tempo, segurança, cuidado e Zona 2 para pensar junto. Não é empilhando reuniões exaustivas e documentos em linguagem inacessível que se produz boa decisão coletiva.

  3. O quórum não é só numérico, é metabólico.
    Não basta “50% + 1” de votos.
    É preciso perguntar:

    • essa decisão mantém o bioma vivo?

    • mantém as pessoas em condições de Zona 2 ao longo do tempo?

    • respeita os corpos-territórios envolvidos?

Na prática, isso se aproxima de experiências como:
  • assembleias cidadãs por sorteio (citizens’ assemblies),

  • orçamentos participativos estruturados,

  • minipúblicos deliberativos que estudam um tema, ouvem especialistas, debatem entre pessoas diversas e, então, formulam recomendações.

Revisões recentes sobre assembleias climáticas nacionais mostram que:
  • quando bem desenhadas (diversas, com bom apoio técnico, tempo adequado, transparência),

  • essas assembleias produzem propostas coerentes, ambiciosas e socialmente sensíveis,

  • e podem reforçar confiança na democracia quando seus resultados são levados a sério.

Eu leio essas experiências como protótipos de Democracia de QSH:
  • são “mini-Jiwasa” sorteados, espelhando a diversidade do país;

  • entram em Zona 2 coletiva (escuta, estudo, debate);

  • geram um quórum deliberativo que não é só contagem, mas consenso qualificado.




E o Chile nisso tudo?

O Chile já experimentou, na pele, formas intensas de Quorum Sensing Humano:
  • 2019 foi literalmente o corpo social dizendo “no son 30 pesos, son 30 años”;

  • cabildos, assembleias territoriais e debates públicos mostraram que há uma inteligência coletiva espalhada pelos bairros, periferias, universidades, povos originários.

Mas grande parte dessa inteligência não encontrou canal institucional estável:
  • o processo constituinte foi capturado por disputas de elites, medos, fake news, campanhas dos 01s;

  • a energia de QSH que lotou ruas não se converteu em estrutura permanente de decisão.

Uma Democracia de QSH para o Chile, a partir da minha proposta, incluiria pelo menos:
  • Assembleias de Quorum Cívico por sorteio em cada região e por bioma, com poder consultivo vinculante em temas críticos (água, mineração, energia, saúde, educação, dados);

  • um Conselho Nacional de Quorum Sensing, integrado por representantes desses minipúblicos, povos originários e comunidades, capaz de acionar alertas metabólicos (por exemplo: quando um bioma ou grupo social atinge limiares de colapso);

  • mecanismos claros de resposta obrigatória do parlamento e do executivo às recomendações dessas instâncias.

Em resumo:
o voto continua existindo,
mas deixa de ser o único momento em que o país escuta o próprio corpo.


Proposta de artigo constitucional (rascunho em espanhol)

Artículo X – Democracia de Quorum Sensing Humano
  1. La democracia de la República se funda en la participación activa y continua de las personas y comunidades, entendida como expresión del Quorum Sensing Humano: la capacidad colectiva de percibir, deliberar y actuar frente a las necesidades y límites de los biomas y de la vida humana.

  2. El Estado reconocerá y promoverá mecanismos de democracia deliberativa, incluyendo asambleas ciudadanas seleccionadas por sorteo, cabildos territoriales y otros mini-públicos, que integren la diversidad social, cultural y territorial del país.

  3. Las decisiones de estos cuerpos deliberativos, cuando cumplan criterios de inclusión, deliberación informada y transparencia, deberán ser consideradas de manera preferente por el Congreso y el Gobierno, estableciéndose procedimientos claros para su respuesta y eventual implementación.

  4. En materias que afecten de manera significativa a los biomas, a los cuerpos-territorios indígenas o a derechos fundamentales, el Estado deberá garantizar procesos deliberativos especiales, con participación directa de las comunidades afectadas, antes de adoptar decisiones finales.

  5. La ley desarrollará los estándares y procedimientos para asegurar que los mecanismos de democracia de Quorum Sensing Humano funcionen con independencia, seguridad psicológica, acceso equitativo a la información y condiciones que favorezcan la deliberación en profundidad.




Sugestões de leitura comentadas

  1. Artigos sobre quorum sensing em animais e decisão coletiva

    • Mostram como peixes, abelhas e outros animais usam regras simples e quóruns para tomar decisões precisas em grupo.

    • Buscar por: “quorum decision-making fish shoals Ward Krause Sumpter” e “Group decision making in honey bee swarms Seeley American Scientist”.

  2. Textos sobre swarm behaviour e bandos de estorninhos

    • Explicam como murmurações de pássaros emergem de regras locais de alinhamento, coesão e separação, sem liderança central.

    • Buscar por: “swarm behaviour starling flocks Hildenbrandt 2010 self-organized aerial displays” e “boids model flocking Reynolds separation alignment cohesion”.

  3. Kurvers et al. (2015) – liderança flexível e inteligência coletiva

    • Mostra como liderança auto-organizada e flexível aumenta a performance de grupos em decisões complexas, dialogando com a ideia de liderança “de mentirinha” que muda conforme a direção.

    • Buscar por: “Kurvers 2015 self-organized flexible leadership promotes collective intelligence”.

  4. Marshall et al. (2019) – quóruns e combinação ótima de informações

    • Usa teoria da decisão para mostrar que simples maioria nem sempre é a melhor forma de combinar informações, e que quóruns podem ser muito mais eficientes em muitos contextos.

    • Buscar por: “Marshall 2019 Quorums enable optimal pooling of independent judgments eLife 40368”.

  5. Reinero (2020), Zhang (2021), Kinreich (2017), Kingsbury (2020) – sincronia entre cérebros

    • Conjunto de trabalhos que mostram como sincronia neural entre pessoas está ligada a empatia, cooperação, tomada de decisão em grupo e sensação de conexão social.

    • Buscar por: “Reinero 2020 inter-brain synchrony teams collective performance”, “Zhang 2021 interbrain synchrony group decision making social dilemmas”, “Kinreich 2017 brain-to-brain synchrony attachment social connectedness”, “Kingsbury 2020 multi-brain framework for social interaction”.

  6. Tremblay, Sharika & Platt (2017) – Social Decision-Making and the Brain

    • Revisão que mostra como decisões sociais – cooperação, punição, reciprocidade – são suportadas por circuitos específicos no cérebro, reforçando a ideia de que somos biologicamente feitos para decidir em grupo.

    • Buscar por: “Tremblay Sharika Platt 2017 Social Decision-Making and the Brain comparative perspective”.

  7. Lorenzoni et al. (2025) – National Citizens’ Climate Assemblies (revisão)

    • Analisa diversas assembleias cidadãs sobre clima, mostrando condições em que produzem recomendações robustas, bem informadas e socialmente legitimadas.

    • Buscar por: “Lorenzoni 2025 review of National Citizens’ Climate Assemblies”.

  8. Pilet (2023), Landemore e outros – assembleias cidadãs e confiança democrática

    • Mostram como assembleias sortidas podem ajudar a restaurar confiança em governos, desde que sejam bem explicadas ao público, protegidas de partidarização e conectadas a mandatos claros.

    • Buscar por: “Pilet 2023 public support for deliberative citizens’ assemblies”, “Getting Real About Citizens’ Assemblies 2023 European Democracy Hub”, “Putting the Initiative Back Together citizens’ assemblies Harvard Law Review 2025”, “Yale blog Can Citizens’ Assemblies Help Restore Trust in Government 2023”.





#eegmicrostates #neurogliainteractions #eegmicrostates #eegnirsapplications #physiologyandbehavior #neurophilosophy #translationalneuroscience #bienestarwellnessbemestar #neuropolitics #sentienceconsciousness #metacognitionmindsetpremeditation #culturalneuroscience #agingmaturityinnocence #affectivecomputing #languageprocessing #humanking #fruición #wellbeing #neurophilosophy #neurorights #neuropolitics #neuroeconomics #neuromarketing #translationalneuroscience #religare #physiologyandbehavior #skill-implicit-learning #semiotics #encodingofwords #metacognitionmindsetpremeditation #affectivecomputing #meaning #semioticsofaction #mineraçãodedados #soberanianational #mercenáriosdamonetização
Author image

Jackson Cionek

New perspectives in translational control: from neurodegenerative diseases to glioblastoma | Brain States