Qual é a pergunta? Experimental Design
Qual é a pergunta? Experimental Design
Eu estou prestes a começar um experimento — e antes mesmo de ligar a tela, eu sinto que já existe um experimento acontecendo em mim.
A sala é fria. A luz branca não é neutra: ela encurta minha respiração sem pedir licença. Eu organizo os cabos, confiro a impedância do EEG, posiciono os optodos do fNIRS. Tudo perfeito… e, mesmo assim, uma parte do meu corpo fica em “modo prova”. Eu reconheço esse estado: meu Eu Tensional. É o “eu” que aparece quando existe tarefa, cobrança, desempenho, risco de errar. Não é teoria. É peito, mandíbula, microtensão nos ombros.
E então eu entendo o ponto que os nossos Avatares querem impedir que eu esqueça: o dado nunca entra num cérebro “sozinho”. O dado entra num corpo em estado, num território, numa história, e — muitas vezes — num entre-nós.
É por isso que eu decidi trabalhar com Avatares de Neurofenotipagem Multimodal. Não como “mascotes”. Não como poesia. Mas como um método replicável de recorte: uma forma explícita de declarar qual lente eu estou usando quando faço a pergunta, desenho o protocolo e interpreto os sinais.
Porque a verdade incômoda é simples: todo pesquisador recorta o real. A diferença é que quase sempre fazemos isso sem assumir. Aí nasce o erro: um protocolo pode rodar perfeitamente e ainda assim responder à pergunta errada — só porque o recorte foi mal definido.
Quando eu digo “vou usar um avatar”, eu faço um compromisso prático comigo mesmo:
eu declaro a unidade do fenômeno, as variáveis centrais, a janela temporal e o conjunto mínimo de medidas. E declaro também o que pode me enganar.
Eu fecho os olhos por um segundo e percebo a primeira regra, a mais humana de todas: a profundidade da pergunta molda o que eu vou perceber em seguida. Se eu pergunto pequeno, eu vou medir pequeno. Se eu pergunto grande, eu preciso admitir que o grande exige corpo, contexto e método.
No meu caderno, eu escrevo como se fosse um protocolo, mas eu leio como se fosse um corpo:
Passo 1 — “Que lente estou assumindo?”
Eu escolho no máximo dois avatares primários. Dois. Porque mais do que isso vira narrativa. O resto entra como ponte, como contexto, não como explicação total.
Passo 2 — “Uma hipótese testável por vez.”
Eu não tento capturar o humano inteiro. Eu escolho um fenômeno e defino o que vai contar como evidência.
Passo 3 — “Qual é a unidade real?”
Indivíduo? Díade? Trio? Grupo? Se eu me engano aqui, eu faço social com variáveis individuais e chamo isso de ciência.
Passo 4 — “Qual é o mínimo de medidas que não posso abandonar?”
EEG e fNIRS são poderosos, mas só fazem sentido se eu sincronizo comportamento, tempo, contexto — e meço estado.
Passo 5 — “O que eu manipulo e o que eu controlo?”
Sem manipulação/controle, eu conto história com correlação.
Passo 6 — “Como vou analisar sem me autoenganar?”
E aqui entra Math-Hep — o avatar auditor.
Eu quase ouço o Math-Hep no meu ouvido, do jeito que ele sempre aparece quando eu começo a “achar bonito demais”:
Math-Hep (seco): “Diga qual é o desfecho primário. Diga qual confound pode te trair. Diga qual modelo respeita sua unidade de análise. O resto é enfeite.”
Eu sorrio. Porque isso também é corpo: o alívio de ter um guardião contra minha própria sedução interpretativa.
Aí eu uso nossa metáfora operacional — não como diagnóstico, mas como mapa rápido para planejar medidas: Pedra–Papel–Tesoura, ligados às Zonas 1–2–3.
Eu me observo agora: estou em Zona 1, modo tarefa, mistura de Tesoura e Pedra. Tesoura: pré-frontal puxado, catalogação, controle; ótimo para método, perigoso para rigidez. Pedra: sensório-motor, resposta rápida; ótimo para eficiência, perigoso para piloto automático. Eu sei que posso empurrar o participante para isso sem querer — com uma frase, um olhar, um cronômetro.
E eu sei que existe outra possibilidade: Papel, a nossa Zona 2 — fruição + metacognição, atenção mais ampla, corpo mais estável, pertencimento reorganizando escolhas. É o estado em que a pessoa não vira refém do próprio esforço. É onde a alta performance fica possível com segurança psicológica.
E existe o risco maior: Zona 3 — quando um roteiro rígido captura o corpo e silencia interocepção e propriocepção. A pessoa “funciona”, mas não reorganiza. Responde, mas não respira por dentro.
Agora eu volto aos avatares, como lentes que me lembram: qual parte do humano eu estou tentando escutar?
Brainlly me puxa para a neurodinâmica viva: neurônios, glia, sangue, transições de estado. Ele me faz perguntar: “Que padrão acompanha esta mudança?” E me obriga a tratar artefato como parte do problema, não como desculpa.
Iam me traz o eixo afetivo: emoções curtas, sentimentos estáveis, motivação e vínculo. Ele me impede de reduzir a experiência a um número só. Ele pergunta: “O que regula esse corpo? O que desregula?”
Tekoha me lembra que interocepção não é só batimento e respiração; é interocepção estendida: hábitos, cultura metabolizada, rotina, água, comida, sono, crenças incorporadas no corpo ao longo do tempo. Ele pergunta: “Isso sustenta ou sabota homeostase?”
APUS me lembra que o ambiente entra no corpo: postura, gravidade, espaço, temperatura, ruído, chão. Ele pergunta: “O que, no território, está reorganizando foco e emoção?”
Olmeca me salva do erro clássico: tratar cultura como ruído. Ele pergunta: “Por que o mesmo estímulo significa coisas diferentes?” Ele me obriga a definir variáveis socioculturais com respeito e precisão — não com exotismo.
Yagé é a caixa de câmbio: mudança de modo, metacognição aplicada. Ele pergunta: “Que construto está capturando o corpo? Como abrir flexibilidade sem impor narrativa?”
DANA segura o longo prazo: estabilidade, ritmos, condições que tornam Zona 2 plausível ao longo do tempo. Ele me empurra para desenho longitudinal e integração real de dados.
E então vem a camada que muda tudo quando eu paro de fingir que o social cabe no indivíduo:
Jiwasa.
Jiwasa é quando a unidade do fenômeno não sou eu, nem você — é o entre. Coordenação, contágio afetivo, timing social, coesão, conflito. Jiwasa me obriga a declarar: “Aqui a minha pergunta é coletiva.” E, se é coletiva, eu não posso medir só um cérebro como se fosse suficiente. Eu preciso de medidas de sincronia — não como fetiche, mas como dado de primeira classe: hyperscanning (EEG/fNIRS), sincronia cardiorrespiratória, turn-taking, prosódia, padrões de erro e acerto conjunto.
E aqui, eu sinto um arrepio de honestidade: sincronia pode ser vínculo, mas também pode ser pressão. Pode ser coerência viva, ou conformidade por ameaça. Se eu não meço estado (Eu Tensional) e contexto (APUS/Tekoha/Olmeca), eu posso confundir obediência com cooperação.
Math-Hep volta com a frase que eu precisava ouvir:
Math-Hep: “Se seu rótulo é colonial, sua estatística vai amplificar o colonial. Primeiro: critério local e co-desenho. Depois: modelo.”
E aí o texto deixa de ser conceito e vira responsabilidade. Porque, sim: medir pode colonizar. Mas também pode libertar — quando o método reconhece o território e devolve protagonismo.
Eu olho para o meu próprio corpo mais uma vez. Eu afrouxo a mandíbula. Eu alongo a expiração. Eu percebo que meu Eu Tensional está dirigindo demais. E eu tomo uma decisão simples, quase pequena, mas que muda tudo:
Eu vou desenhar o estudo como ponte, não como captura.
Vou declarar o avatar. Vou declarar o recorte. Vou declarar o limite.
E vou tratar estado como variável central — não como ruído.
Porque no fim, a ciência que eu quero fazer na América Latina não é a que “descobre o humano” como essência exportável. É a que modela o humano como sistema em estado — em relação — em território.
E quando eu escrevo a última linha no caderno, eu tento que ela seja sentida, não só entendida:
A pergunta não é apenas “qual estímulo eu apresentei?”
É: em que corpo, em que respiração, em que território, com que história, e entre quais pessoas?
Se eu me lembro disso, meus avatares deixam de ser personagens.
Eles viram método.
E o método vira cuidado.
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NIRS EEG Hyperscanner
¿Cuál es la pregunta? Diseño experimental
Qual é a pergunta? Experimental Design
Jiwasa y Hyperscanner: Cuando lo colectivo se vuelve dato (sin volverse colonización)
Jiwasa and Hyperscanner: When the Collective Becomes Data (Without Becoming Colonization)
Jiwasa e Hyperscanner: Quando o coletivo vira dado (sem virar colonização)
La percepción no es un canal: es un estado
Perception Is Not a Channel: It’s a State
Percepção Não é Canal: é Estado
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