Jackson Cionek
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Psicodélicos, Yagé e Reorganização dos Eus Tensionais

Psicodélicos, Yagé e Reorganização dos Eus Tensionais

FESBE 2026, estados de consciência, neuroplasticidade, EEG e fNIRS

Antes de falar de psicodélicos, a gente precisa voltar ao corpo com responsabilidade. Respiração. Peito. Mandíbula. Memórias. Medos. Crenças. Pertencimentos. Nenhum estado de consciência acontece fora de um corpo, fora de uma história e fora de um território.

A FESBE 2026 abre espaço para esse tema ao incluir discussões sobre psicodélicos na neurociência, estados de consciência, neurobiologia, ritmos biológicos, saúde mental e métodos experimentais. Isso permite que a BrainLatam2026 trate o assunto com seriedade: não como moda, nem como promessa mágica, mas como campo científico que exige ética, método, segurança e materialidade.

Na linguagem BrainLatam2026, Yagé não deve ser reduzido à substância. Yagé é um avatar para pensar troca de modo, metacognição aplicada e reorganização de constructos. Ele ajuda a perguntar: quando um eu tensional rígido pode deixar de repetir Pedra e Tesoura — reação automática e controle rígido — para entrar em Papel, isto é, Fruição com metacognição?

A ciência recente sobre psicodélicos aponta justamente para temas como neuroplasticidade, flexibilidade psicológica, reorganização de padrões cerebrais, alteração de crenças rígidas e mudanças na percepção de si. Revisões atuais discutem que os efeitos terapêuticos podem envolver não apenas alterações farmacológicas, mas também experiências subjetivas profundas, emoção, sentido e reconexão interpessoal. (Frontiers)

Aqui entra a ideia dos Eus Tensionais. Muitos sofrimentos aparecem quando uma pessoa continua sustentando personagens que o corpo já não consegue harmonizar: o eu que precisa ser forte, o eu que precisa obedecer, o eu que precisa vencer, o eu que precisa ter fé sem dúvida, o eu que precisa manter a “família margarina”, o eu que precisa performar sucesso. Esses personagens são memórias em ação. São padrões corporais, afetivos, cognitivos e sociais recrutados para fazer — não necessariamente para ser.

Os psicodélicos, em contextos científicos controlados, têm sido estudados como possíveis desestabilizadores de padrões rígidos. Um artigo de 2023 propõe a ideia de “quebra de padrões”, aproximando psicodélicos de sistemas complexos, cérebro entrópico e relaxamento de crenças rígidas. Isso conversa diretamente com a BrainLatam2026: talvez certos estados ampliados permitam observar os personagens sociais como construções, e não como destino. (OUP Academic)

Mas é essencial deixar claro: essa discussão não é incentivo ao uso. Psicodélicos envolvem riscos, exigem contexto legal, ético, clínico e científico, e não devem ser tratados como solução simples. Para a BrainLatam2026, o ponto não é romantizar substâncias. O ponto é estudar, com rigor, como estados de consciência podem reorganizar percepção, memória, corpo e pertencimento.

O EEG entra como ferramenta importante porque permite observar a dinâmica rápida do cérebro: oscilações, estados de vigilância, alterações de atenção, integração sensorial e mudanças na atividade elétrica durante estados alterados. Estudos com ayahuasca e EEG já buscaram detectar mudanças na atividade cerebral usando aprendizado de máquina e redes complexas, mostrando que há materialidade neurofisiológica mensurável nesse campo. (PLOS)

O fNIRS/NIRS entra por outro caminho. Como tecnologia portátil e mais compatível com contextos naturalísticos, pode ajudar a investigar alterações hemodinâmicas corticais, especialmente em regiões pré-frontais ligadas à regulação, tomada de decisão, controle cognitivo e integração emocional. Trabalhos recentes defendem que o fNIRS pode abrir novas oportunidades para estudar psicodélicos e atividade cerebral de forma menos restrita que métodos clássicos de neuroimagem. (ResearchGate)

A pergunta BrainLatam2026 poderia ser:

quando um estado ampliado de consciência permite reorganizar eus tensionais rígidos sem apagar o corpo-território?

Um desenho experimental possível, sempre em contexto ético e aprovado, poderia comparar pessoas antes e depois de uma intervenção clínica ou ritualística legalmente autorizada, medindo:

  • EEG para oscilações e dinâmica temporal;

  • fNIRS para atividade pré-frontal;

  • HRV/RMSSD para regulação autonômica;

  • respiração para ritmo corporal;

  • GSR para ativação emocional;

  • EMG para tensão muscular;

  • entrevistas fenomenológicas;

  • escalas de flexibilidade psicológica, pertencimento e sentido.

Aqui, Yagé seria a lente principal. Iam ajudaria a compreender experiência subjetiva, emoção e identidade. Tekoha observaria o estado interno do corpo: medo, abertura, conforto, náusea, segurança, acolhimento ou ameaça. APUS perguntaria se o território sustenta ou desorganiza a experiência. Math/Hep impediria a confusão entre poesia e evidência: uma hipótese por vez, uma medida por vez, uma conclusão dentro do que os dados permitem.

A crítica decolonial é indispensável. A ciência global frequentemente estuda substâncias associadas a saberes indígenas e amazônicos, mas nem sempre reconhece território, ancestralidade, cuidado comunitário, linguagem ritual, colonialidade e desigualdade. Yagé, para a BrainLatam2026, não pode ser extraído apenas como molécula. Precisa ser pensado também como corpo-território, história, cultura, pertencimento e responsabilidade.

Ao mesmo tempo, a BrainLatam2026 precisa evitar o erro oposto: transformar tradição em afirmação sem medida. O caminho é duplo: respeitar saberes originários e exigir ciência com evidência. Nem reducionismo químico, nem romantização acrítica.

Esse tema também conversa com o DREX Cidadão. Se muitos corpos vivem em Zona 3 por insegurança econômica, violência simbólica, trabalho exaustivo e pertencimento performático, a reorganização dos eus tensionais não pode depender apenas de terapias individuais. É preciso território, alimento, cuidado, tempo, escola, saúde, cultura e segurança mínima. Sem metabolismo cidadão, a sociedade exige cura individual de feridas que ela mesma continua produzindo.

No fim, Psicodélicos, Yagé e Reorganização dos Eus Tensionais é um convite para estudar estados de consciência sem ingenuidade. O corpo pode mudar de modo. A memória pode deixar de sustentar personagens rígidos. A percepção pode se reorganizar. Mas isso só vira conhecimento sério quando a gente une ética, território, método, cuidado e evidência.

A pergunta final fica:

o que acontece quando o corpo percebe que não precisa mais sustentar o personagem que aprendeu a ser?


Referências recentes que ratificam este texto

  1. Hipólito et al. (2023) — propõem uma abordagem de sistemas complexos para psicodélicos, discutindo “quebra de padrões”, cérebro entrópico e relaxamento de crenças rígidas. (OUP Academic)

  2. Alves et al. (2022) — estudo com EEG, aprendizado de máquina e redes complexas para investigar alterações cerebrais associadas à ayahuasca. (PLOS)

  3. Scholkmann & Vollenweider (2022) — discutem oportunidades do fNIRS para neuroimagem em pesquisas com psicodélicos, destacando seu potencial para investigar mudanças na atividade cerebral. (ResearchGate)

  4. Cardone et al. (2024) — revisão sobre psicodélicos e desordens da consciência, discutindo complexidade cerebral e estados alterados. (PMC)

  5. Chaves et al. (2024) — revisão sobre DMT e ayahuasca, destacando características específicas desses estados, como imagens internas intensas e experiências subjetivas profundas. (Frontiers)

  6. Kishon et al. (2025) — discutem terapia psicodélica integrando neuroplasticidade, experiência subjetiva, emoção, autopercepção e conexão interpessoal. (Frontiers)

  7. Weiss et al. (2025) — revisão sobre psicodélicos e neuroplasticidade, abordando mecanismos moleculares, celulares e comportamentais. (PMC)

  8. Agnorelli et al. (2025) — revisão sobre neuroplasticidade e psicodélicos clássicos e não clássicos, relacionando efeitos rápidos e duradouros a mudanças plásticas no sistema nervoso. (sciencedirect.com)




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