Jackson Cionek
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Quando a percepção muda, o mundo mudou ou mudou nosso recorte?

Quando a percepção muda, o mundo mudou ou mudou nosso recorte?

Plasticidade cerebral, Cérebro Preditivo, saberes ancestrais e estados de consciência: um diálogo entre o Neurobucano e as Neurociências Decoloniais Latino-Americanas.

1. Antes de interpretar, perceba

Observe uma lembrança que acabou de aparecer.

Você não precisou reconstruir conscientemente cada detalhe. Talvez uma imagem, um cheiro ou uma sensação tenha surgido enquanto lia.

Agora perceba o que acontece quando pergunta: essa lembrança corresponde exatamente ao que vivi?

Talvez alguns detalhes pareçam diferentes.

O acontecimento passado não precisou mudar. Mudou aquilo que conseguimos reconstruir no presente.

E se algo semelhante acontecesse quando encontramos uma experiência profundamente diferente?

Essa pergunta aproxima a BrainLatam do Neurobucano, que reuniu Sidarta Ribeiro, Dráulio Araújo e Marcelo Leite para discutir sono, psicodélicos, plasticidade neural e suas consequências sociais.

Nosso objetivo não é defender substâncias ou desacreditar experiências ancestrais.

É investigar como organismos constroem percepções, atribuem significados e modificam suas possibilidades de ação.

Recortamos para saber, não para ser.

2. O Corpo-Território já imagina, julga e faz

Antes de discutir psicodélicos, precisamos reconhecer três capacidades que participam de nossa experiência.

Imagine encontrar uma pessoa desconhecida.

Antes do encontro, você antecipa possibilidades. Durante a conversa, compara expectativas e acontecimentos. Depois, pode modificar sua maneira de agir.

Na BrainLatam, relacionamos essas operações aos três poderes presentes, analogicamente, em cada Corpo-Território.

Religião - Legislativo: imaginar futuros, construir expectativas e representar possibilidades ainda não experimentadas.

Política - Judiciário: interpretar acontecimentos, atribuir valores e julgar consequências.

Ciência - Executivo: agir, experimentar e investigar os efeitos produzidos no encontro com o mundo.

Essas funções não correspondem a três regiões cerebrais nem significam que toda ação seja ciência ou toda imaginação seja religião institucional.

São dimensões de nossa elaboração filosófica sobre a experiência integrada.

Em O futuro que ainda não existe - Religião e Legislativo para possibilitar utopias, propomos compreender a capacidade de imaginar futuros sem convertê-los automaticamente em verdades obrigatórias.

Cada Corpo-Território constitui, em nossa concepção, uma unidade indivisível do Estado-Jiwasa: não apenas recebe decisões, mas pode participar de sua construção e contestação.

3. O Cérebro Preditivo: perceber também é antecipar

Você está lendo esta frase antes de conhecer seu final.

Talvez seu cérebro já esteja antecipando palavras e significados possíveis.

Modelos de processamento preditivo investigam como expectativas e informações sensoriais participam continuamente da percepção.

Isso não significa que inventamos livremente a realidade.

Significa que aquilo que percebemos depende da interação entre sinais disponíveis, experiências anteriores e modelos que podem ser atualizados.

Na BrainLatam, aproximamos a capacidade preditiva da dimensão que denominamos Religião: imaginar aquilo que ainda não existe.

Mas prever não é demonstrar.

Uma expectativa pode orientar nossa experiência e continuar equivocada.

O julgamento permite questioná-la. A ação oferece novas consequências. A investigação científica testa explicações.

Chamamos essa circulação de Religare.

A experiência não exige três comandantes separados. O organismo integra processos que podem cooperar, competir e transformar-se.

4. Sidarta Ribeiro: o sono também transforma aquilo que percebemos

No Neurobucano, Sidarta Ribeiro apresentou o diálogo entre sono, psicodélicos e plasticidade neural.

Suas pesquisas na Universidade Federal do Rio Grande do Norte investigam memória, sonhos e mecanismos de aprendizagem.

Enquanto dormimos, o cérebro não interrompe suas atividades.

Diferentes processos contribuem para a consolidação e reorganização de memórias. Sonhos podem combinar elementos de experiências anteriores em configurações que não ocorreram exatamente daquela maneira.

Isso não demonstra que todo sonho produza conhecimento verdadeiro ou transformação duradoura.

Mas nos permite investigar como a experiência pode ser reorganizada sem corresponder diretamente a acontecimentos externos presentes.

O sonho oferece uma pergunta anterior aos psicodélicos:

Se podemos experimentar mundos durante o sono, como distinguir o acontecimento, sua representação e o significado que atribuímos a ele?

Essa distinção preserva a experiência subjetiva sem transformar sua intensidade em evidência suficiente de realidade externa.

5. Dráulio Araújo: investigar o que muda durante a experiência

Dráulio Araújo e pesquisadores brasileiros utilizam neuroimagem para investigar efeitos cerebrais e comportamentais de substâncias psicodélicas.

Em 2024, Tiago Arruda Sanchez e colaboradores, incluindo Dráulio Araújo, publicaram um estudo de ressonância magnética funcional sobre regulação emocional em participantes experientes com ayahuasca.

Os resultados identificaram diferenças associadas ao processamento de estímulos aversivos e a respostas emocionais.

Entretanto, alterações em medidas cerebrais não demonstram, isoladamente, cura, transcendência ou acesso privilegiado à verdade.

Os efeitos de psicodélicos dependem de múltiplos fatores, incluindo características individuais, contexto, expectativas e condições de acompanhamento.

Também existem riscos psicológicos e fisiológicos, além de limitações importantes nas evidências clínicas disponíveis.

Plasticidade cerebral significa capacidade de modificação do sistema nervoso. Não significa necessariamente melhoria.

Uma transformação pode ser benéfica, prejudicial, transitória ou persistente.

Precisamos investigar qual transformação ocorreu, em quem, sob quais condições e com quais consequências.

6. Deixa vir, deixa ficar, deixa Ser

Imagine que uma experiência inesperada desperta medo.

Você percebe a sensação.

Mas sentir medo não demonstra que o perigo imaginado realmente exista.

Agora considere nossa proposta:

Deixa vir. Deixa ficar. Deixa Ser. Pode desobedecer. E deixa ir.

Em Quando a laicidade permite deixar Ser, desenvolvemos essa sequência como uma gramática de autonomia.

Deixa vir: reconhecer o acontecimento.

Deixa ficar: permitir sua observação, quando isso for seguro.

Deixa Ser: reconhecer a experiência sem exigir imediatamente uma identidade definitiva.

Pode desobedecer: não transformar sensação, crença ou interpretação em obrigação.

Deixa ir: preservar a possibilidade de mudança.

Não se trata de um protocolo terapêutico nem de recomendar exposição a experiências que provoquem sofrimento.

Trata-se de uma reflexão metacognitiva.

Podemos reconhecer aquilo que sentimos sem entregar nossa capacidade de julgar.

E podemos aprender com uma experiência sem transformar sua interpretação em verdade incontestável.

7. Saberes ancestrais: quem possui o direito de interpretar?

A ayahuasca integra conhecimentos e práticas de diferentes povos indígenas amazônicos, além de tradições religiosas brasileiras.

Reduzi-la exclusivamente a seus componentes químicos seria desconsiderar dimensões históricas, cosmológicas e comunitárias.

Mas romantizar essas práticas também impediria reconhecer suas diferenças, tensões e necessidades de proteção.

Em 2023, Adana Omágua-Kambeba, Beatriz Caiuby Labate e Sidarta Ribeiro defenderam um diálogo urgente entre ciência psicodélica e xamanismo indígena.

Essa aproximação exige participação efetiva dos povos envolvidos, respeito aos conhecimentos tradicionais e responsabilidade sobre os benefícios produzidos pelas pesquisas.

Em 2025, Ulysses Albuquerque, Romulo Alves e Washington Ferreira Júnior aprofundaram os desafios éticos de pesquisas envolvendo conhecimentos indígenas e comunidades tradicionais.

Uma Neurociência Decolonial não transforma povos indígenas em fornecedores de experiências para validação externa.

Reconhece sua participação na formulação de perguntas, na interpretação dos resultados e nas decisões sobre o uso do conhecimento.

8. Consciência 5D: quando A encontra possibilidades de B

Volte à lembrança que iniciou nossa leitura.

Talvez ela tenha adquirido outro significado.

Você não precisou abandonar sua existência para reconhecer uma possibilidade diferente.

Na BrainLatam, nossa proposta de Consciência 5D investiga a experiência do tempo e das transformações a partir do organismo situado.

Entre A e B, podem ocorrer mudanças na percepção, na memória, na avaliação e nas possibilidades de ação.

Nossa hipótese de Reserva Conectômica Relacional acrescenta uma pergunta: encontros com o diferente poderiam ampliar os recursos funcionais disponíveis para reorganizações futuras?

Isso não está demonstrado pelas pesquisas com psicodélicos.

Podemos investigar a hipótese, distinguindo mudanças temporárias na atividade cerebral de neuroplasticidade duradoura.

Transcender, em nossa elaboração filosófica, não significa abandonar o corpo.

Significa reconhecer possibilidades anteriormente inacessíveis à nossa interpretação.

9. Marcelo Leite: quem julga a transformação?

A participação do jornalista científico Marcelo Leite no Neurobucano acrescenta uma dimensão indispensável: como comunicar descobertas sem transformar possibilidades em promessas?

A chamada reemergência psicodélica envolve resultados científicos, expectativas terapêuticas, interesses econômicos, tradições culturais e disputas regulatórias.

Precisamos distinguir cada dimensão.

Experimento → Resultado → Interpretação → Julgamento → Decisão.

FAZER É CIÊNCIA. JULGAR É POLÍTICA.

A pesquisa pode identificar alterações neurofisiológicas.

A pessoa pode atribuir significado à experiência.

A comunidade pode possuir interpretações próprias.

E decisões clínicas ou públicas exigem avaliação de evidências, riscos, direitos e consequências.

Nenhuma dessas dimensões deveria apagar as demais.

Uma experiência subjetiva pode ser cientificamente estudada sem ser reduzida aos correlatos neuronais, desde que diferentes métodos reconheçam aquilo que conseguem investigar e aquilo que permanece fora de seus limites.

Talvez você termine esta leitura percebendo o mundo exatamente como antes.

Talvez alguma interpretação tenha mudado.

Não precisamos decidir isso por você.

A consciência não precisa obedecer a toda experiência que acontece nela. Pode investigar, reinterpretar e participar da construção de novos caminhos.

Esse é o encontro que propomos entre Neurobucano e Neurociências Decoloniais Latino-Americanas: uma ciência capaz de estudar a transformação sem retirar de cada Corpo-Território sua agência para interpretar aquilo que vive.

Referências científicas e intelectuais comentadas

As referências acompanham o percurso do artigo: percepção, previsão, plasticidade, experiência subjetiva, saberes ancestrais e responsabilidade na interpretação científica.

1. NEUROBUCANO (2024). II Seminário de Neurociências em Pernambuco. UFPE e Real Hospital Português do Recife.

A programação incluiu palestras de Sidarta Ribeiro, Dráulio Araújo e Marcelo Leite, aproximando pesquisas sobre sono, plasticidade, DMT e consequências sociais dos psicodélicos.

Evento

2. BRAINLATAM (2026). O futuro que ainda não existe - Religião e Legislativo para possibilitar utopias.

Relaciona o Cérebro Preditivo à imaginação de futuros e desenvolve a analogia entre Religião, Legislativo e capacidade de formular possibilidades sem convertê-las em verdades obrigatórias.

Religião e Legislativo para possibilitar utopias

3. RIBEIRO, Sidarta. Memory, Sleep and Dreams - perfil científico e linhas de pesquisa. Instituto do Cérebro, Universidade Federal do Rio Grande do Norte.

As pesquisas de Sidarta Ribeiro integram sono, memória, sonhos, plasticidade e psicodélicos, oferecendo bases para investigar a reorganização da experiência e suas relações com a aprendizagem.

Brain Institute

4. SANCHEZ, Tiago Arruda et al. (2024). Emotion regulation effects of Ayahuasca in experienced subjects during implicit aversive stimulation: An fMRI study. Journal of Ethnopharmacology, 320, 117430.

Com participação de Dráulio Araújo, o estudo utiliza ressonância magnética funcional para investigar diferenças associadas à regulação emocional em participantes experientes com ayahuasca, contribuindo para compreender os efeitos neurobiológicos sem reduzir a experiência aos sinais medidos.

PubMed

5. BRAINLATAM (2026). Quando a laicidade permite deixar Ser.

Apresenta a sequência “Deixa vir → Deixa ficar → Deixa Ser → Pode desobedecer → Deixa ir”, defendendo a autonomia interpretativa e a possibilidade de transformar crenças e pertencimentos sem perder a própria agência.

brainlatam

6. OMÁGUA-KAMBEBA, Adana; LABATE, Beatriz Caiuby; RIBEIRO, Sidarta (2023). Psychedelic science and Indigenous shamanism: an urgent dialogue. Nature Mental Health, 1, 815–816.

Os autores defendem uma relação mais responsável entre a investigação científica dos psicodélicos e os conhecimentos indígenas, reconhecendo questões de participação, apropriação e proteção cultural.

Nature Mental Health

7. ANTUNES, Henrique Fernandes; LABATE, Beatriz Caiuby (2024). Entre saberes tradicionais, ciência e proibicionismo: contribuições da antropologia para a legitimação do uso da ayahuasca. Ponto Urbe.

Os antropólogos analisam como pesquisas e disputas políticas influenciaram o reconhecimento das práticas relacionadas à ayahuasca no Brasil, distinguindo evidências científicas, conhecimentos tradicionais e decisões regulatórias.

Ponto Urbe

8. ALBUQUERQUE, Ulysses Paulino; ALVES, Romulo Romeu Nóbrega; FERREIRA JÚNIOR, Washington Soares (2025). The contemporary challenge for ethical research involving the knowledge of indigenous peoples and local communities and afro-descendants and other marginalized, minority, or minoritized groups. Journal of Ethnobiology and Ethnomedicine, 21, 29.

Os pesquisadores brasileiros discutem justiça epistêmica, responsabilidades éticas e coprodução do conhecimento, fundamentando a necessidade de participação das comunidades em pesquisas sobre seus próprios saberes.

Springer Nature Link

9. GEARIN, Alex K. (2024). Healing with Ayahuasca the Plant Teacher: Psychedelic Metaphoricity and Polyontologies. Medical Anthropology, 43(7), 583–597.

O estudo antropológico examina interpretações distintas da ayahuasca entre participantes e especialistas Shipibo na Amazônia peruana, mostrando que experiências corporais semelhantes podem adquirir significados ontológicos diferentes.

PubMed

10. BENEDITO, Pietro; SANABRIA, Emilia (publicado on-line em 2024). Psychedelic Nation? (De)Provincializing the Psychedelic Renaissance from Brazil. Science, Technology, & Human Values.

Os autores analisam a contribuição brasileira à pesquisa psicodélica e questionam narrativas internacionais que subestimam a importância científica, cultural e institucional da América Latina.

Pietro Benedito, Emilia Sanabria, 2026

11. LEITE, Marcelo (2024). Um livro corajoso sobre meandros de luz e sombra da ayahuasca. Folha de S.Paulo, 15 de junho de 2024.

O jornalista científico discute as complexidades das experiências com ayahuasca, contribuindo para uma comunicação pública que não confunda interesse científico com idealização dos psicodélicos.

Folha

12. BRAINLATAM (2026). O instante em que A deixa de Ser A.

Desenvolve nossa reflexão sobre transformações entre estados de experiência, permitindo relacionar percepção, expectativa, reorganização funcional e agência sem afirmar que toda mudança subjetiva demonstra neuroplasticidade.


BRAINLATAM | NEUROBUCANO | W46/2026 | BLOG 03/08

 
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Jackson Cionek

New perspectives in translational control: from neurodegenerative diseases to glioblastoma | Brain States