Jackson Cionek
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Antes de aprender, um cérebro precisa comer. Quem decide isso?

Antes de aprender, um cérebro precisa comer. Quem decide isso?

Metabolismo, desnutrição precoce, meritocracia e Rendimento-Estado: da Neurociência de Pernambuco às condições materiais de existência de cada Corpo-Território.

1. Antes de pensar na fome, perceba seu corpo

Enquanto lê estas palavras, seu cérebro continua consumindo energia.

Mesmo sem perceber, seu organismo regula temperatura, circulação, respiração e inúmeras atividades necessárias à vida.

Agora imagine que você não saiba quando fará sua próxima refeição.

Sua atenção mudou?

Talvez tenha lembrado de alguém. Talvez tenha pensado no preço dos alimentos.

Você não precisa responder como esperamos.

Queremos investigar aquilo que sua experiência acrescenta à pergunta.

No Neurobucano - II Seminário de Neurociências em Pernambuco, Rubem Guedes apresentou pesquisas sobre consequências cerebrais da desnutrição no início da vida.

A BrainLatam propõe ampliar esse encontro: se a alimentação participa do desenvolvimento cerebral, quem organiza as condições materiais que tornam possível alimentar-se?

2. Rubem Guedes: a nutrição participa da organização neural

Rubem Guedes, da Universidade Federal de Pernambuco, investiga há décadas relações entre nutrição e funcionamento cerebral.

Em 2024, Guedes e colaboradores publicaram um estudo sobre os efeitos da privação visual precoce e da desnutrição na depressão alastrante cortical de ratos adultos.

A depressão alastrante cortical é uma onda de despolarização que se propaga pelo tecido cerebral, permitindo investigar propriedades eletrofisiológicas das redes.

Essas pesquisas ajudam a compreender como experiências precoces podem produzir consequências funcionais observáveis posteriormente.

Entretanto, resultados em animais não permitem determinar diretamente o futuro cognitivo de uma criança.

Desenvolvimento neural envolve nutrição, genética, saúde, experiências, relações e condições ambientais.

O experimento revela mecanismos importantes. Não revela sozinho a totalidade da vida.

Recortamos para saber, não para ser.

3. Mente Damasiana: a fome não acontece apenas no cérebro

Imagine avaliar duas crianças exclusivamente por seus resultados escolares.

Uma apresenta melhor desempenho.

Você poderia concluir que aprendeu mais rapidamente.

Mas conhece a alimentação, o sono, a segurança e as condições de aprendizagem de cada uma?

António e Hanna Damásio relacionam sentimentos homeostáticos e consciência à regulação do organismo vivo.

Na BrainLatam, nossa elaboração sobre a Mente Damasiana e a responsabilidade cívica amplia essa reflexão para o Corpo-Território.

A fome possui mecanismos fisiológicos.

Mas o acesso ao alimento também depende de renda, produção, distribuição e políticas públicas.

Uma Neurociência Decolonial pode investigar essas dimensões sem reduzir o social ao neuronal ou abandonar a precisão experimental.

4. A Ilha dos Papéis: ninguém escolheu onde nasceu

Vamos retornar à nossa Ilha dos Papéis, onde mil habitantes criaram dinheiro para organizar suas trocas.

Vinte gerações depois, algumas famílias acumularam propriedades, enquanto outras dependem principalmente do trabalho.

Duas crianças nascem.

Nenhuma decidiu como a moeda seria emitida, quem receberia crédito ou quais famílias herdariam patrimônio.

Entretanto, ambas começam a viver as consequências dessas escolhas.

Uma encontra segurança alimentar e acesso a serviços.

A outra enfrenta privações.

Agora imagine avaliá-las apenas pelo desempenho futuro.

É aqui que a meritocracia exige investigação crítica.

O esforço individual importa. Mas oportunidades herdadas, condições sociais e recursos disponíveis também participam das trajetórias.

Não podemos transformar diferenças de resultado em julgamentos definitivos sobre o valor das pessoas.

5. Minha frustração com os governos Lula

Durante décadas, votei em Luiz Inácio Lula da Silva esperando transformações capazes de ampliar o bem-estar social brasileiro.

Reconheço a importância das políticas de combate à pobreza e de expansão de oportunidades.

Mas minha frustração permanece diante da continuidade de estruturas que conferem ao sistema financeiro enorme influência sobre nossas possibilidades econômicas.

O diálogo de Lula com banqueiros durante a campanha de 2002 tornou-se, para mim, um marco dessa tensão entre transformação social e compromissos com a estabilidade financeira.

Em 26 de junho de 2024, durante seu terceiro governo, o Conselho Monetário Nacional estabeleceu a meta contínua de inflação de 3%, com tolerância entre 1,5% e 4,5%.

Essa meta não impede legalmente que a Selic fique abaixo de 10%.

Entretanto, combinada com expectativas inflacionárias elevadas e outras condições macroeconômicas, pode contribuir para sustentar juros restritivos.

Em 4 de novembro de 2026, o Copom manteve a Selic em 13,75% ao ano.

Minha crítica não é defender inflação elevada. A estabilidade de preços também protege famílias vulneráveis.

Pergunto por que encontramos tanta dificuldade para construir estabilidade monetária acompanhada de crédito acessível, investimento produtivo e distribuição mais ampla das possibilidades econômicas.

6. Brasil como coisa de ricos: quem recebe os benefícios?

Em O Brasil como Coisa de Ricos - Quando as regras pertencem a quem pode interpretá-las, investigamos diferenças entre possuir direitos formalmente e conseguir exercê-los.

Juros elevados podem remunerar determinados ativos financeiros e, simultaneamente, encarecer empréstimos.

Também procuram conter pressões inflacionárias, cujas consequências atingem especialmente famílias com menor capacidade de proteger sua renda.

Não precisamos presumir que todos ganham ou perdem da mesma maneira.

Precisamos identificar quem recebe rendimentos, quem paga custos e quais alternativas institucionais existem.

A Ilha dos Papéis torna essa pergunta visível: quem participa da criação, circulação e interpretação das regras do dinheiro?

E como essas decisões atravessam os corpos que precisam comer todos os dias?

7. Corpo-Território: o Estado começa antes do salário

Imagine uma criança recém-nascida.

Ela não trabalha, não possui patrimônio e não apresenta produtividade econômica mensurável.

Entretanto, já integra a comunidade política.

Na BrainLatam, propomos que cada Corpo-Território seja reconhecido como unidade constitutiva e indivisível do Estado-Jiwasa.

Dessa concepção nasce o Rendimento-Estado, desenvolvido em nossa proposta Drex Cidadão.

Um rendimento universal, individual, permanente e incondicional.

Não como salário, empréstimo ou recompensa por produtividade.

Mas como expressão econômica do pertencimento ao Estado.

É uma hipótese político-institucional, não um direito monetário atualmente estabelecido.

Sua implantação exigiria financiamento sustentável, legislação, governança, proteção de dados e avaliação de efeitos sobre preços, trabalho e distribuição.

O Drex Cidadão seria uma possível infraestrutura, distinta do projeto oficial de Drex do Banco Central.

O Corpo-Território não deveria precisar demonstrar mérito para participar economicamente do Estado que constitui.

8. Rendimento Bioma: nenhum alimento começa no supermercado

Agora acompanhe o caminho de um alimento.

Antes de chegar ao prato, ele dependeu de solo, água, energia, biodiversidade, conhecimentos e trabalho.

Quanto dessas relações aparece integralmente no preço final?

Em Quando o Bioma também entra na decisão, propomos investigar o Rendimento Bioma como reconhecimento econômico da continuidade ecológica.

Preservar água, vegetação, fertilidade do solo e biodiversidade também sustenta possibilidades futuras.

O Rendimento Bioma não substitui o Rendimento-Estado.

Um reconheceria contribuições ecológicas e territoriais; o outro, o pertencimento individual à comunidade política.

Ambos exigiriam critérios públicos, avaliações econômicas e mecanismos transparentes de distribuição.

9. Produção de Excessos: mais produção significa mais vida?

Imagine duas regiões agrícolas.

Uma produz alimentos, reduz perdas e recupera o solo.

Outra amplia continuamente a extração, mas seus habitantes continuam enfrentando insegurança alimentar.

Qual delas ampliou mais as condições de vida?

Em Produzir mais até quando? Quando o excesso começa a produzir menos futuro, investigamos a Produção de Excessos.

Não somos contra produzir mais alimentos, medicamentos ou tecnologia.

Perguntamos se o aumento da produção melhora efetivamente a distribuição, a suficiência material e a regeneração ecológica.

A FAO registra avanços recentes contra a fome na América Latina, mas também desigualdades persistentes e dificuldades de acesso a dietas saudáveis.

O desafio envolve produzir, distribuir e preservar as condições que permitirão continuar produzindo.

10. Antes de julgar o mérito, precisamos conhecer as condições

Volte às duas crianças da Ilha dos Papéis.

Imagine que ambas realizem uma avaliação escolar.

Você conhece suas respostas.

Mas conhece suas histórias?

Na BrainLatam, distinguimos:

Experimento → Resultado → Interpretação → Julgamento → Decisão.

FAZER É CIÊNCIA. JULGAR É POLÍTICA.

A Neurociência investiga como nutrição e ambiente participam do desenvolvimento.

A Economia examina recursos, incentivos e distribuição.

A Política decide quais direitos e responsabilidades devem orientar as instituições.

Nenhuma dessas dimensões substitui as demais.

Nossa frustração política pode tornar-se uma pergunta verificável: quais arranjos econômicos ampliariam segurança alimentar, desenvolvimento e autonomia sem comprometer a estabilidade necessária à vida coletiva?

O Neurobucano contribui com a investigação dos mecanismos cerebrais.

A BrainLatam acrescenta o Corpo-Território como unidade de experiência e participação.

Talvez você tenha começado esta leitura pensando apenas na fome como uma necessidade individual.

Talvez agora reconheça também as relações que tornam possível alimentar-se.

Não precisamos determinar sua interpretação.

Mas precisamos perguntar: se o cérebro necessita de condições materiais para aprender, por que a participação nessas condições deveria depender de uma produtividade que a criança ainda não teve oportunidade de desenvolver?

O Rendimento-Estado, o Rendimento Bioma e a Produção de Excessos são hipóteses abertas à investigação.

O compromisso permanece: construir conhecimento e instituições capazes de ampliar as possibilidades de Ser de cada Corpo-Território.

Referências científicas e intelectuais comentadas

As referências acompanham o desenvolvimento do artigo e apresentam a contribuição específica de cada trabalho. Os links estão incorporados aos títulos, permitindo que o leitor aprofunde a investigação sem interromper desnecessariamente o percurso do texto.

1. NEUROBUCANO (2024). II Seminário de Neurociências em Pernambuco. Universidade Federal de Pernambuco e Real Hospital Português do Recife.

O evento reuniu pesquisas interdisciplinares em Neurociência, incluindo a contribuição de Rubem Guedes sobre consequências cerebrais de curto e longo prazo da desnutrição precoce.

2. GUEDES, Rubem C. A. et al. (2024). Effects of early monocular enucleation on cortical spreading depression in well-nourished and malnourished adult rats. Experimental Brain Research, 242, 2241–2247.

A pesquisa pernambucana investiga como condições nutricionais e experiências sensoriais precoces podem influenciar propriedades eletrofisiológicas do cérebro adulto, contribuindo para compreender mecanismos de plasticidade e vulnerabilidade durante o desenvolvimento.

3. DAMASIO, Antonio; DAMASIO, Hanna (2024). Homeostatic Feelings and the Emergence of Consciousness. Journal of Cognitive Neuroscience.

Os autores relacionam sentimentos homeostáticos, regulação corporal e consciência, oferecendo fundamentos neurobiológicos para compreender a mente como processo de um organismo vivo.

4. BRAINLATAM (2025). Mente Damasiana e a Origem Neural da Responsabilidade Cívica - Soberania e Defesa Nacional.

Desenvolve nossa interpretação sobre como as experiências corporais de fome, segurança, cuidado e pertencimento podem participar de reflexões sobre responsabilidade social e cidadania.

5. BRAINLATAM (2026). A Ilha dos Papéis - Quem recebeu o direito de criar o dinheiro?.

A experiência imaginária demonstra como regras de criação monetária, propriedade e crédito podem produzir diferenças econômicas intergeracionais, permitindo questionar a relação entre oportunidades e mérito individual.

6. BANCO CENTRAL DO BRASIL (2024). Resolução CMN nº 5.141, de 26 de junho de 2024.

Estabelece a meta contínua de inflação de 3%, com tolerância de 1,5 ponto percentual para cima ou para baixo, vigente a partir de janeiro de 2025. Essa decisão fundamenta a análise crítica de nossa política monetária.

7. BANCO CENTRAL DO BRASIL (2026). Copom reduz a Selic para 13,75% ao ano - setembro de 2026; B3 (2026), Copom interrompe cortes e mantém taxa Selic em 13,75% ao ano - novembro de 2026.

Os documentos permitem acompanhar a justificativa da política monetária restritiva e a decisão de 4 de novembro, quando o Copom manteve a Selic em 13,75%, oferecendo bases verificáveis para discutir custos do crédito e estabilidade de preços.

8. BRAINLATAM (2026). O Brasil como Coisa de Ricos - Quando as regras pertencem a quem pode interpretá-las.

Investiga como desigualdades econômicas podem produzir capacidades distintas de compreender, influenciar e exercer direitos, ampliando a crítica à meritocracia e à concentração institucional de poder.

9. FAO; FIDA; OPAS; UNICEF; PMA (2025/2026). Latin America and the Caribbean - Regional Overview of Food Security and Nutrition 2025.

O panorama regional identifica reduções recentes da fome, mas também persistência de insegurança alimentar, desigualdades e dificuldades de acesso a dietas saudáveis, reforçando a dimensão econômica e territorial da nutrição.

10. FURTADO, Celso (1959). Formação econômica do Brasil.

O economista brasileiro investiga as origens históricas das estruturas produtivas, das desigualdades regionais e da concentração econômica, contribuindo para compreender por que oportunidades materiais não são distribuídas exclusivamente pelo esforço individual.

11. BRAINLATAM (2026). Drex Cidadão - Quem recebe o dividendo dos dados? Do Corpo-Território ao Rendimento-Estado.

Formula o Rendimento-Estado como proposta de participação econômica universal e incondicional vinculada ao reconhecimento de cada Corpo-Território como unidade constitutiva do Estado, distinguindo esse direito proposto do pagamento por trabalho ou produtividade.

QUEM RECEBE O DIVIDENDO DOS DADOS?

12. BRAINLATAM (2026). Quando o Bioma também entra na decisão.

Desenvolve o Rendimento Bioma como proposta para reconhecer economicamente funções ecológicas e regeneração territorial, relacionando desenvolvimento às condições ambientais que sustentam cada Corpo-Território.

13. BRAINLATAM (2026). Produzir mais até quando? Quando o excesso começa a produzir menos futuro.

Apresenta a Produção de Excessos como proposta para avaliar a expansão produtiva considerando suficiência material, valor agregado, distribuição econômica e pressão ecológica.

BRAINLATAM | NEUROBUCANO | W46/2026 | BLOG 04/08

 
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Jackson Cionek

New perspectives in translational control: from neurodegenerative diseases to glioblastoma | Brain States