Jackson Cionek
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O cérebro vive perto do caos. E se o diferente despertasse possibilidades que ainda não utilizamos?

O cérebro vive perto do caos. E se o diferente despertasse possibilidades que ainda não utilizamos?

Da criticalidade cerebral à Reserva Conectômica Relacional: como o encontro entre Corpos-Territórios pode reorganizar nossas possibilidades de Ser.

Antes de compreender, perceba o que acontece

Enquanto lê estas palavras, talvez você perceba sua respiração.

Não precisamos modificá-la.

Agora imagine uma situação em que precisou abandonar uma resposta conhecida porque encontrou algo inesperado.

Talvez uma pessoa tenha feito uma pergunta diferente. Talvez um acontecimento tenha transformado aquilo que parecia evidente.

Você continuou sendo você. Mas alguma coisa mudou na maneira de perceber suas possibilidades.

Em que instante essa transformação começou?

Na BrainLatam, queremos investigar justamente o percurso entre dois estados: A → B.

Não apenas aquilo que éramos antes ou aquilo que conseguimos realizar depois, mas as reorganizações que acontecem durante a transição.

Talvez o cérebro mobilize possibilidades funcionais pouco utilizadas. Talvez diferentes redes encontrem novas formas de coordenação.

E talvez nossas relações com outros Corpos-Territórios participem dessas transformações.

Não precisamos aceitar antecipadamente essas hipóteses.

Podemos investigá-las juntos.

1. Criticalidade: quando a organização permite mudar

Imagine uma floresta.

Uma árvore cai. A luz alcança novas plantas. Animais modificam suas trajetórias. Relações antes improváveis tornam-se possíveis.

Nenhum elemento conhece a totalidade da floresta.

Ainda assim, mudanças locais podem produzir consequências coletivas.

Na Física, sistemas complexos são investigados considerando como propriedades emergem das interações entre componentes.

A criticalidade descreve condições próximas de determinadas transições de fase, nas quais sistemas podem apresentar flutuações e respostas distribuídas por diferentes escalas.

No cérebro, pesquisadores investigam assinaturas desses fenômenos em cascatas de atividade conhecidas como avalanches neuronais.

Isso não significa que o cérebro esteja permanentemente caótico ou que toda mudança seja uma transição crítica.

Significa que determinadas organizações dinâmicas podem apresentar propriedades favoráveis à propagação de informação e à flexibilidade.

E aqui surge nossa primeira pergunta:

Será que aquilo que chamamos de estabilidade depende também da capacidade de reorganizar-se diante do diferente?

2. Neurobucano: Pernambuco investiga a emergência da organização

O II Seminário de Neurociências em Pernambuco, Neurobucano, reuniu pesquisadores dedicados à criticalidade, ao escalonamento neuronal e aos sistemas complexos.

Entre eles, Mauro Copelli, Osame Kinouchi, Antonio Fontenele e Tiago Ribeiro representam contribuições importantes para a investigação da dinâmica cerebral.

Em 2024, Felipe Serafim, Tawan Carvalho, Mauro Copelli e Pedro Carelli publicaram uma pesquisa sobre métricas de máxima entropia capazes de identificar assinaturas de criticalidade em registros neuronais.

O estudo compara modelos computacionais com dados experimentais, procurando distinguir condições críticas de sistemas que não apresentam transições equivalentes.

Essa distinção é fundamental.

Encontrar um padrão não significa automaticamente descobrir seu mecanismo.

E medir uma configuração cerebral não significa compreender todas as possibilidades daquele organismo.

A contribuição pernambucana abre caminho para perguntas que ultrapassam a simples localização de atividades.

Como uma rede se reorganiza? Que propriedades surgem das interações? Quais condições permitem preservar estabilidade sem impedir transformações?

3. Entre A e B, existe um cérebro acontecendo

Voltemos à sua experiência.

Você encontra uma ideia inesperada.

Antes de decidir o que pensa sobre ela, talvez compare lembranças, antecipe consequências ou reorganize sua atenção.

Nem todas essas possibilidades se transformam em ações observáveis.

Algo semelhante inspira nossa reflexão sobre o cérebro durante a mudança e os 150 segundos investigados por Hutcheon.

Em 2023, Evan Hutcheon e colaboradores examinaram relações entre oscilações eletroencefalográficas e saturação de oxigênio durante diferentes condições de hipóxia.

As relações observadas durante uma fase inicial de mudança fisiológica não foram simplesmente idênticas às encontradas posteriormente.

O estudo não demonstra uma duração universal das transições cerebrais, nem comprova transcendência.

Entretanto, nos convida a investigar uma questão decisiva:

O que deixamos de conhecer quando observamos apenas A e B, ignorando o organismo durante a transformação?

Talvez algumas possibilidades existam justamente nas relações dinâmicas que se reorganizam durante o percurso.

4. Roberto Lent: conexões que podem permanecer disponíveis

Em 2026, os pesquisadores brasileiros Roberto Lent, Fernanda Tovar-Moll e Diego Szczupak propuseram, na revista Brain, a hipótese da Reserva Conectômica como possível recurso para a neuroplasticidade.

Durante o desenvolvimento cerebral, numerosas projeções neuronais são formadas e reorganizadas.

Algumas conexões anatômicas podem persistir mesmo quando não participam intensamente das atividades habitualmente observadas.

Os autores investigam a possibilidade de que tais conexões constituam recursos disponíveis para reorganizações futuras.

Não estamos falando de neurônios conscientes aguardando instruções.

Estamos diante de uma hipótese anatômica e funcional que ainda exige validação experimental.

Na BrainLatam, acrescentamos outra pergunta:

Quando encontramos algo diferente, será que podemos recrutar configurações funcionais pouco utilizadas anteriormente?

Precisamos distinguir a reorganização de redes existentes do recrutamento efetivo de conexões anatômicas de reserva.

Uma coisa não comprova automaticamente a outra.

Mas essa distinção permite transformar uma intuição em investigação científica.

5. E se a reserva também depender das relações?

Imagine cinco pessoas tentando atravessar um território desconhecido.

Uma percebe obstáculos. Outra reconhece sinais ambientais. Uma terceira identifica mudanças no comportamento dos companheiros.

Nenhuma possui todas as informações.

Talvez uma pessoa proponha avançar. Outra interrompa o movimento. Uma terceira descubra uma alternativa.

O coletivo modifica sua trajetória.

Não sabemos se houve um comando central. Talvez exista liderança momentânea. Talvez a coordenação tenha emergido de ajustes recíprocos.

O que importa é investigar como diferenças individuais podem contribuir para possibilidades compartilhadas.

Na BrainLatam, desenvolvemos essa pergunta em A Reserva Conectômica pode estar esperando por um Nós?.

Chamamos de Reserva Conectômica Relacional a hipótese de que determinados encontros possam ampliar o repertório funcional acessível aos organismos envolvidos.

Não afirmamos que um coletivo possua um único cérebro.

Perguntamos se a reciprocidade pode modificar aquilo que cada participante consegue perceber, aprender e realizar.

Talvez as relações não acrescentem apenas informações.

Talvez também modifiquem as condições para utilizar recursos que já existiam.

6. Sem comandante central não significa sem organização

Em 2024, Sue Rhamidda, Mauricio Girardi-Schappo e Osame Kinouchi investigaram mecanismos homeostáticos de auto-organização próximos à transição de sincronização.

Modelos dessa natureza demonstram como propriedades coletivas podem depender de regras locais de interação e adaptação.

Mas precisamos evitar uma interpretação precipitada.

Redes neuronais possuem hierarquias, circuitos regulatórios e mecanismos especializados.

Coletivos humanos também podem combinar liderança, negociação, cooperação e decisões distribuídas.

Não existe equivalência automática entre a organização de neurônios e uma sociedade democrática.

Entretanto, podemos formular uma pergunta comum às duas escalas:

Como diferentes componentes conseguem ajustar suas atividades quando nenhum deles dispõe de todas as informações?

Talvez a novidade não esteja na ausência absoluta de comando.

Esteja na capacidade de modificar a organização quando o contexto exige respostas ainda não previstas.

Um caos organizado não é ausência de regras. É a possibilidade de novas configurações emergirem das relações.

7. Ailton Krenak: a floresta conhece relações que não medimos

Em Futuro ancestral (2022), Ailton Krenak questiona a separação entre humanidade e natureza.

Sua reflexão nos convida a reconhecer que rios, florestas e territórios não representam apenas recursos disponíveis para determinados projetos humanos.

São dimensões de relações que sustentam diferentes formas de vida.

Essa contribuição não constitui uma teoria neurofisiológica da criticalidade.

Ela questiona quais relações escolhemos considerar importantes.

Na BrainLatam, utilizamos APUS e Tekoha para ampliar perguntas sobre corpo, orientação e território vivido, preservando a autonomia dos significados indígenas originários.

Diante do diferente, talvez nossas possibilidades de adaptação dependam também da diversidade de relações que conseguimos reconhecer.

Mas como investigar essa hipótese sem transformar culturas e territórios em simples variáveis experimentais?

A resposta exige colaboração com os próprios participantes e reconhecimento de sua autonomia.

8. Hyperscanning: investigar o instante do encontro

Podemos transformar essas perguntas em protocolos experimentais.

Imagine cinco participantes resolvendo problemas individuais e coletivos, enfrentando situações conhecidas e inesperadas.

Com EEG, fNIRS, ECG, respiração e registros comportamentais, podemos investigar mudanças na coordenação neural, fisiológica e nas estratégias de ação.

O hyperscanning permite acompanhar simultaneamente diferentes participantes.

Entretanto, sincronização cerebral não demonstra, por si só, compreensão compartilhada nem recrutamento anatômico de reserva.

Precisamos comparar condições, controlar estímulos comuns e investigar se as interações produzem mudanças comportamentais mensuráveis.

O objetivo não é comprovar previamente a Reserva Conectômica Relacional.

É descobrir se ela pode gerar hipóteses testáveis e resultados replicáveis.

Talvez encontremos reorganizações funcionais. Talvez identifiquemos apenas adaptações comportamentais. Talvez nossas hipóteses precisem ser abandonadas.

Também isso representa produção de conhecimento.

9. Transcender não precisa significar abandonar o Ser

Na reflexão O instante em que A deixa de Ser A, propomos investigar como movimentos preparados podem ser interrompidos, transformados ou substituídos durante uma transição.

Talvez transcender, em nossa elaboração filosófica, não signifique abandonar a realidade física.

Signifique perceber possibilidades que anteriormente não encontravam condições de expressão.

A Reserva Conectômica Relacional permanece uma hipótese, não uma demonstração dessa transcendência.

Mas o encontro com o diferente pode oferecer perguntas novas.

Você começou esta leitura com determinadas expectativas.

Encontrou criticalidade, redes neuronais, conexões disponíveis e coletivos em reorganização.

Sua interpretação mudou?

Não precisamos decidir por você.

Recortamos para saber, não para ser.

Na Ciência, construímos modelos e experimentos.

Na Política, precisamos discutir quem interpreta os resultados e quem participa das decisões.

FAZER É CIÊNCIA. JULGAR É POLÍTICA.

Na BrainLatam, o Jiwasa representa nossa proposta de pensar coletivos capazes de preservar a agência de cada Corpo-Território.

O Neurobucano demonstra a importância da contribuição pernambucana para a ciência dos sistemas complexos.

Nós propomos ampliar esse encontro com perguntas decoloniais, participação científica e investigação das relações.

Volte agora à sua respiração.

Talvez ela tenha mudado.

Talvez não.

Mas você pode escolher o que esta leitura acrescenta à sua compreensão.

E se a maravilha dos sistemas complexos fosse justamente permitir que muitos encontrassem novas possibilidades de Ser, sem que nenhum precisasse deixar de ser?

Referências científicas e intelectuais comentadas

As referências estão organizadas na sequência das ideias, com links incorporados aos títulos e às contribuições científicas. O conjunto permite acompanhar a construção do argumento desde a criticalidade neuronal até as hipóteses de reserva e agência compartilhada.

1. NEUROBUCANO (2024). II Seminário de Neurociências em Pernambuco. UFPE e Real Hospital Português do Recife.

O encontro reúne pesquisas sobre criticalidade, dinâmica neural, comportamento e sistemas complexos, fundamentando nosso diálogo com a produção científica de Pernambuco.

2. SERAFIM, Felipe; CARVALHO, Tawan T. A.; COPELLI, Mauro; CARELLI, Pedro V. (2024). Maximum-entropy-based metrics for quantifying critical dynamics in spiking neuron data. Physical Review E, 110, 024401.

Os pesquisadores da UFPE investigam métricas capazes de distinguir assinaturas de criticalidade em modelos e registros neuronais, mostrando a importância de critérios quantitativos para reconhecer propriedades coletivas.

Phys. Rev. E

3. HUTCHEON, Evan A. et al. (2023). Associations between spontaneous electroencephalogram oscillations and oxygen saturation across normobaric and hypobaric hypoxia. Human Brain Mapping, 44, 2345–2364.

O estudo investiga associações entre oscilações eletroencefalográficas e oxigenação em diferentes condições fisiológicas, inspirando nossa atenção aos processos de transição entre estados.

PubMed

4. LENT, Roberto; TOVAR-MOLL, Fernanda; SZCZUPAK, Diego (2026). The secret connections of the brain: a connectomic reserve for neuroplasticity?. Brain, 149(7), 2273–2285.

Os pesquisadores propõem a hipótese da Reserva Conectômica: conexões anatômicas que persistem no cérebro poderiam representar recursos para reorganizações neuroplásticas futuras. Trata-se de uma proposta científica que ainda requer validação funcional específica.

Oxford Academic

5. RHAMIDDA, Sue L.; GIRARDI-SCHAPPO, Mauricio; KINOUCHI, Osame (2024). Optimal input reverberation and homeostatic self-organization toward the edge of synchronization. Chaos, 34, 053127.

Os pesquisadores investigam mecanismos de auto-organização homeostática em redes, contribuindo para compreender como interações locais e regulação podem produzir dinâmicas coletivas sem planejamento global explícito.

6. RUSCH, Flavio R.; KINOUCHI, Osame; ROQUE, Antonio C. (2025). Influence of topology on the critical behavior of hierarchical modular neuronal networks. Communications Physics, 8, 168.

O estudo investiga como a arquitetura das conexões modifica as propriedades críticas de redes neuronais, reforçando a importância da organização relacional para compreender sistemas complexos.

7. KRENAK, Ailton (2022). Futuro ancestral. Companhia das Letras.

O pensador indígena brasileiro questiona a separação entre humanidade e natureza e amplia o debate sobre relações, pertencimento e continuidade da vida, oferecendo uma perspectiva filosófica complementar à investigação científica das redes.

8. BRAINLATAM (2026). O cérebro durante a mudança - os 150 segundos de Hutcheon.

Discute a importância de investigar a dinâmica de uma transformação, em vez de observar exclusivamente os estados inicial e final.

9. BRAINLATAM (2026). A Reserva Conectômica pode estar esperando por um Nós?.

Desenvolve nossa hipótese de Reserva Conectômica Relacional, perguntando se encontros recíprocos podem ampliar as possibilidades funcionais disponíveis a cada organismo.

brainlatam

10. BRAINLATAM (2026). O instante em que A deixa de Ser A.

Investiga conceitualmente como movimentos preparados, percepção corporal, alostase e decisões podem participar das transições entre diferentes possibilidades de ação.

brainlatam

11. BRAINLATAM (2026). APUS e Tekoha - Como o mundo entra no corpo e o corpo retorna ao mundo.

Articula Corpo-Território, interocepção, orientação e pertencimento, oferecendo perguntas para pesquisas científicas que respeitem a autonomia dos conhecimentos indígenas.

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Jackson Cionek

New perspectives in translational control: from neurodegenerative diseases to glioblastoma | Brain States