Jackson Cionek
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Jiwasa - pertencer sem permanecer na mesma posição

Jiwasa - pertencer sem permanecer na mesma posição

Deixa vir. Deixa ficar. Deixa Ser. Pode desobedecer. Transcender-se Ser. Deixa ir.

Em um coletivo inclusivo, pertencer não deveria significar permanecer no mesmo lugar.

Hoje posso perceber primeiro uma diferença. Amanhã será você.

Em determinada situação, meu conhecimento pode reorganizar o grupo. Em outra, aquilo que sei pode ser irrelevante, enquanto outro Corpo-Território ocupa uma posição mais sensível ao que está acontecendo.

Talvez por isso devamos ter cuidado com uma palavra recorrente quando pensamos coletivos: liderança.

Não porque ninguém possa orientar uma ação, mas porque orientar em determinado instante não precisa produzir o direito permanente de comandar.

Preferimos começar por outra palavra:

posição.

Posição diante do ambiente, da informação, dos outros e da diferença.

E, principalmente:

a possibilidade de mudar de posição sem deixar de pertencer.

É aqui que Jiwasa ganha outra dimensão.

Jiwasa é “A gente”: o nós inclusivo. Pertencer sem necessidade de reduzir o Ser.

Agora acrescentamos:

pertencer também não exige permanecer na mesma posição.

Dois continuam sendo dois

Em 2025, Ivo Leiva-Cisterna, Paulo Barraza, Eugenio Rodríguez e Guillaume Dumas produziram uma contribuição latino-americana particularmente importante para essa discussão.

Utilizando estimulação sensorial rítmica em díades durante uma tarefa cooperativa, encontraram aumento da sincronização intercerebral nas frequências estimuladas e melhora da coordenação cooperativa. O desenho permitiu avançar além das associações frequentemente encontradas em estudos de hyperscanning e investigar experimentalmente uma contribuição funcional do acoplamento intercerebral para aquela cooperação.

Mas algo fundamental permaneceu:

dois continuaram sendo dois.

Dois corpos.

Dois metabolismos.

Duas histórias.

Duas experiências em primeira pessoa.

Houve coordenação sem que precisemos imaginar a fusão dos participantes em um único Ser.

Isso permite uma hipótese:

o coletivo não precisa começar quando o indivíduo termina.

Pode emergir justamente das relações entre diferenças que continuam existindo.

Sincronizar não significa tornar-se igual

Existe aqui uma sedução tecnológica.

Se determinada sincronização favoreceu cooperação, poderíamos imaginar que o melhor coletivo seria aquele no qual todos estivessem maximamente sincronizados.

O estudo não demonstra isso.

Sincronização intercerebral não significa identidade, consciência compartilhada ou experiências subjetivas iguais.

Para Jiwasa, talvez a pergunta seja outra:

quanto precisamos coordenar para agir juntos sem eliminar justamente as diferenças que permitem ao coletivo perceber aquilo que um único Corpo-Território não perceberia?

Talvez um coletivo precise:

sincronizar suficientemente para coordenar

e

permanecer suficientemente diferente para continuar produzindo alternativas.

Quem está na posição de perceber primeiro?

Imagine trinta pessoas atravessando um território.

Uma percebe fumaça.

Outra conhece o caminho.

Outra percebe mudança no vento.

Outra sabe onde encontrar água.

Outra consegue tranquilizar uma criança.

Outra conhece primeiros socorros.

Quem é o líder?

Talvez a pergunta esteja errada.

Podemos perguntar:

quem está, naquele instante, na posição capaz de perceber uma diferença relevante para o coletivo?

As revoadas investigadas por Giorgio Parisi e colaboradores oferecem uma analogia interessante. Interações locais entre estorninhos conseguem participar de extraordinárias reorganizações coletivas sem um controlador central determinando continuamente o movimento de cada ave.

Estorninhos não são sociedades humanas.

Mas deixam uma pergunta poderosa:

quanto de organização coletiva pode emergir de relações locais sem que cada participante precise possuir toda a informação do coletivo?

Orientar não precisa significar liderar permanentemente.

Função não precisa virar hierarquia.

A diferença pode surgir na borda

Quem está no centro não ocupa necessariamente a melhor posição para perceber aquilo que está mudando.

Uma comunidade percebe a falta de água antes do gabinete.

Uma pessoa com deficiência encontra uma barreira invisível para quem desenhou determinado serviço.

Um povo originário percebe mudanças territoriais que ainda não apareceram nas estatísticas.

Uma criança formula uma pergunta que nenhum especialista havia feito.

O Corpo-Território diferente talvez não seja ruído.

Pode simplesmente estar em outra posição de percepção.

E nem toda borda é geográfica.

Existe a borda entre culturas, linguagens, conhecimentos, memória e imaginação.

Entre sono e vigília.

E se o sinal vier de um sonho?

Em diferentes povos originários das Américas, sonhos podem ocupar lugares sociais, relacionais e cosmológicos que não correspondem à ideia de experiência exclusivamente privada e sem consequências coletivas.

Isso não significa afirmar:

“alguém sonhou, portanto aconteceu.”

Mas também não exige concluir:

“foi apenas um sonho, portanto nada aconteceu.”

Existe uma terceira possibilidade:

um Corpo-Território percebeu alguma coisa.

Podemos escutar.

Interpretar.

Comparar.

Discordar.

Decidir.

Sinal não é verdade.

Sentir confirma que algo ocorreu na experiência daquele Corpo-Território; não demonstra, sozinho, que sua interpretação corresponda ao mundo externo.

Mas aquilo que ainda não sabemos se é verdadeiro pode produzir uma pergunta.

O sonho de um não precisa tornar-se a verdade de todos para tornar-se uma pergunta para todos.

Quem decidiu o que conta como conhecimento?

É nesse ponto que Danilo Silva Guimarães se torna fundamental.

Ao discutir Psicologia Indígena, Guimarães alerta para conhecimentos culturalmente situados tratados como universais e argumenta que um encontro efetivo com conhecimentos indígenas pode exigir retificações semânticas e revisões conceituais e teórico-práticas. Dialogicidade, etnocentrismo, descolonização e violência epistêmica entram no centro da discussão.

Isso coloca nosso próprio projeto em risco — e precisa colocá-lo.

E se Jiwasa também estiver reduzindo aquilo que pretende incluir?

Podemos construir categorias sofisticadas — Corpo-Território, pertencimento, consciência, sincronização, IA Personalíssima — e depois convidar outros conhecimentos apenas para ocupar lugares que nossas categorias já determinaram.

Nesse caso, não produzimos inclusão.

Produzimos assimilação.

Talvez um coletivo inclusivo precise permitir não apenas respostas diferentes, mas diferentes maneiras de formular aquilo que pode ser pergunta, sinal e conhecimento.

Deixa vir

É nesse ponto que recuperamos uma sequência construída anteriormente na BrainLatam.

Deixa vir.

Uma diferença precisa conseguir chegar antes que decidamos o que significa.

Pode vir de uma medição.

De uma palavra.

Do território.

De outro Corpo-Território.

De um conhecimento ancestral.

Ou de um sonho.

Deixa ficar

Deixa ficar.

Não precisamos expulsar imediatamente aquilo que contradiz nossas categorias.

Uma diferença pode permanecer tempo suficiente para encontrar outras diferenças, produzir relações e ser interpretada.

Romanini, ao aproximar semiose e inferência ativa, oferece instrumentos para pensar sistemas navegando ambientes dinâmicos, lidando com surpresa, significado e formação de hábitos.

Aquilo que inicialmente parece perturbação pode carregar informação.

Deixa Ser

Depois vem uma etapa mais difícil:

Deixa Ser.

O sonho não precisa imediatamente virar variável neurofisiológica para poder ser narrado.

Um conhecimento originário não precisa primeiro receber tradução científica para poder participar da conversa.

Outro Corpo-Território não precisa tornar-se semelhante a mim para pertencer comigo.

Deixar Ser significa permitir existência sem exigir redução como preço inicial do pertencimento.

Mas ainda falta movimento.

Pode desobedecer

Escutar não é obedecer.

Incluir não é concordar.

Reconhecer uma diferença não significa transformá-la em verdade coletiva.

Outro Corpo-Território pode dizer:

“Eu ouvi você, mas não percebo assim.”

E continuar pertencendo.

Talvez seja justamente aí que descobrimos se o coletivo é realmente inclusivo:

quando o pertencimento sobrevive ao não.

Desobedecer, neste contexto, não significa simplesmente violar regras comuns. Significa preservar a possibilidade de não aderir, contestar, interpretar de outra maneira e continuar sendo parte de A gente.

Se todos podem falar, mas pertencer depende de concordar, temos participação sem liberdade.

Transcender-se Ser

É justamente entre Deixa Ser e Pode desobedecer que propomos outra possibilidade:

Transcender-se Ser.

Em nosso conceito estendido de Yãy hã mĩy, propusemos:

Imitar Ser para transcender-se Ser.

Experimentar outra posição não significa tornar-se definitivamente o outro.

Podemos experimentar outra configuração e descobrir outra possibilidade de Ser.

Isso reencontra diretamente uma questão trabalhada na W40/2026.

Ao investigarmos transições, perguntávamos o que acontece não apenas no estado A ou no estado B, mas durante a passagem A → B.

Agora podemos levar a mesma pergunta ao coletivo:

o que acontece com A gente entre Jiwasa-A e Jiwasa-B?

Um participante introduz uma diferença.

Ela circula.

Encontra outras diferenças.

Alguns aproximam-se.

Outros discordam.

Posições mudam.

O coletivo experimenta outra configuração.

Jiwasa-A → diferença → transição → Jiwasa-B.

Mas B não precisa ser melhor que A.

E ninguém precisa permanecer em B.

Podemos ter:

A → B → A.

Ou:

A → B → C.

A transcendência não precisa estar no destino.

Pode estar no movimento que tornou outra configuração possível.

Transcender-se Ser, portanto, não significa abandonar definitivamente aquilo que se era.

Significa atravessar uma diferença suficientemente para experimentar outra possibilidade de Ser.

Liberdade para que o sinal circule

Aqui liberdade de expressão deixa de ser apenas um princípio jurídico.

Torna-se também uma possível condição informacional do coletivo.

O Corpo precisa de espaço e movimento para sinalizar e se regular.

Talvez Jiwasa também.

Se um Corpo-Território percebe algo, mas entende que expressá-lo significará expulsão, humilhação ou perda de pertencimento, aquela diferença pode não circular.

Silenciar alguém não elimina necessariamente o sinal.

Pode apenas impedir que o coletivo o perceba.

Isso não significa que toda fala seja verdadeira ou que expressão não possa encontrar limites quando viola direitos de outros.

Significa algo anterior:

um coletivo incapaz de receber diferenças pode perder acesso às próprias mudanças internas.

Deixa ir

Finalmente:

Deixa ir.

Nem todo sinal precisa virar consenso.

Nem todo sonho precisa virar previsão.

Nem toda ideia precisa virar norma.

Nem toda experiência precisa virar identidade.

Nem toda transição precisa tornar-se permanência.

Algumas diferenças vêm.

Ficam.

São.

Encontram desobediência.

Movimentam A gente.

E vão.

Mas depois delas o coletivo sabe que poderia ter sido diferente.

Talvez seja essa uma propriedade fundamental de Jiwasa.

Não apenas permitir diferentes maneiras de Ser, mas preservar movimento suficiente para experimentar outras maneiras de Ser sem perder o direito de voltar, continuar ou mudar novamente.

Uma IA que não transforme tudo em permanência

Isso produz uma exigência importante para a IA Personalíssima.

Uma arquitetura centralizadora poderia transformar tudo em dado:

sonho vira categoria;

território vira coordenada;

pertencimento vira escore;

diferença vira perfil.

Mas talvez a IA Personalíssima também precise aprender a deixar ir.

Nem tudo precisa ser registrado permanentemente.

Nem toda transição precisa redefinir quem aquela pessoa “é”.

Mesmo de um instante para outro, um Corpo-Território pode mudar de preferência, posição e configuração.

Uma IA que transforma cada passagem em identidade corre o risco de retirar justamente o movimento que deveria proteger.

Continuar podendo Ser

Chegamos então à nona hipótese desta W41/2026.

Jiwasa não é unanimidade.

Não é máxima sincronização.

Não é ausência de organização.

Não é submissão.

E não é transformar diferentes conhecimentos em uma única linguagem.

Jiwasa é pertencer sem reduzir o Ser.

Por isso nossa sequência deixa de ser apenas uma frase:

Deixa vir → Deixa ficar → Deixa Ser ⇄ Pode desobedecer → Transcender-se Ser → Deixa ir.

Deixa Ser preserva a diferença.

Pode desobedecer preserva o movimento.

Transcender-se Ser preserva a possibilidade de transformação.

Deixa ir preserva a liberdade de não transformar toda transformação em permanência.

Jiwasa não seria um coletivo que finalmente encontrou sua forma perfeita.

Seria um coletivo capaz de continuar encontrando formas sem aprisionar seus Corpos-Territórios dentro delas.

Pertencer sem permanecer na mesma posição.

Transcender-se Ser sem deixar de poder Ser.


Referências

LEIVA-CISTERNA, I.; BARRAZA, P.; RODRÍGUEZ, E.; DUMAS, G. Sensory multi-brain stimulation enhances dyadic cooperative behavior. Social Cognitive and Affective Neuroscience, 20(1), nsaf104, 2025.
Contribuição latino-americana central para a discussão sobre sincronização intercerebral, coordenação e cooperação. O trabalho sustenta a discussão experimental sobre coordenação; não demonstra Jiwasa nem transcendência coletiva.

GUIMARÃES, Danilo Silva. A tarefa histórica da Psicologia Indígena diante dos 60 anos da regulamentação da Psicologia no Brasil. Psicologia: Ciência e Profissão, 42, 2022.
Fundamental para a discussão de dialogicidade, violência epistêmica, descolonização e necessidade de revisão das próprias categorias diante do encontro com conhecimentos indígenas.

GUIMARÃES, Danilo Silva. Perspectivas em Psicologia Indígena no Brasil: desafios éticos e epistemológicos. Estudos de Psicologia, 2024.
Amplia a discussão sobre pluralidade epistemológica e os limites de incorporar conhecimentos indígenas a categorias previamente definidas.

ROMANINI, Vinicius. Semiose, inteligência e inferência ativa. deSignis, 43, 2025.
Oferece elementos para pensar diferença, surpresa, significação, hábitos e reorganização em sistemas que interagem com ambientes dinâmicos.

MALDONADO VALERA, C.; LEROY, N.; MAHALUF MEZA, F.; ESCOBEDO MUÑOZ, F. Cohesión social y desarrollo social inclusivo en América Latina y el Caribe: segundo panorama regional. CEPAL, 2026.
Contribui para colocar pertencimento, desigualdade, institucionalidade, solidariedade, convivência e diálogo em escala latino-americana.

PARISI, Giorgio. In a Flight of Starlings: The Wonders of Complex Systems. 2023.
Referência conceitual complementar sobre auto-organização e emergência. As revoadas são utilizadas como analogia de sistemas complexos, não como modelo direto de organização política humana.

GRAEBER, David; WENGROW, David. The Dawn of Everything. 2021.
Referência antropológica complementar para questionar a naturalização de hierarquias e posições permanentes.


W41/2026 — CEPID da IA Personalíssima ao Futuro Coletivo

Hipótese BrainLatam: um coletivo inclusivo talvez não seja aquele que maximiza a concordância, mas aquele que preserva espaço e movimento suficientes para que diferenças possam surgir, circular, ser experimentadas, contestadas e desaparecer sem que seus Corpos-Territórios precisem deixar de pertencer.

Deixa vir. Deixa ficar. Deixa Ser. Pode desobedecer. Transcender-se Ser. Deixa ir.

Porque talvez transcender coletivamente não seja chegar juntos ao mesmo lugar, mas continuar pertencendo enquanto descobrimos que A gente também poderia Ser de outra maneira.








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Jackson Cionek

New perspectives in translational control: from neurodegenerative diseases to glioblastoma | Brain States