Jackson Cionek
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FESBE 2026 — Neurociência Decolonial

FESBE 2026 — Neurociência Decolonial

Somente a Ciência com Evidência Pode nos Deslocar de Nossos Ótimos Locais

Antes da certeza, existe um corpo buscando estabilidade. Antes da ideologia, existe uma respiração que encontrou abrigo em uma narrativa. Antes da “verdade absoluta”, existe um sistema vivo tentando reduzir incerteza, gasto energético e ameaça.

Na BrainLatam2026, chamamos isso de ótimo local em Zona 3.

Na computação evolutiva, um ótimo local é uma solução que parece boa dentro de uma vizinhança restrita, mas que pode impedir o sistema de encontrar soluções melhores em outra região da paisagem de busca. Em paisagens complexas, algoritmos podem ficar presos em picos locais quando falta diversidade, exploração ou perturbação suficiente para escapar. As Local Optima Networks, desenvolvidas por Gabriela Ochoa e colaboradores, ajudam justamente a mapear como esses ótimos locais se conectam em paisagens de otimização. (arXiv)

A BrainLatam2026 propõe uma transposição cuidadosa:

corpos, grupos e sociedades também podem ficar presos em ótimos locais neuroafetivos.

O corpo aprende um modo de existir. O cérebro estabiliza previsibilidades. O grupo confirma. O algoritmo reforça. O medo protege. O pertencimento recompensa. Aos poucos, uma posição parcial passa a parecer verdade total.

Nesse estado:

  • a pergunta diminui;

  • a certeza aumenta;

  • a curiosidade enfraquece;

  • a crítica estrutural perde força;

  • e a pessoa passa a defender causas prontas, muitas vezes criadas por outros.

O ótimo local cultural costuma parecer confortável porque oferece identidade. Ele diz quem somos, quem são os inimigos, o que devemos repetir, o que devemos consumir, em quem devemos votar e quais perguntas devemos evitar.

Por isso, Zona 3 pode ser entendida como um ótimo local neuroafetivo rigidificado: há pertencimento, mas com pouca liberdade interna; há sincronia coletiva, mas com baixa metacognição; há narrativa forte, mas pouca abertura para novas perguntas.

A polarização social explora exatamente isso. Ela estabiliza grupos em picos emocionais previsíveis. O algoritmo funciona como operador de repetição: entrega mais do mesmo, reforça indignação, reduz diversidade cognitiva, recompensa reação rápida e diminui exploração do espaço de possibilidades.

Na computação evolutiva, escapar de ótimos locais exige diversidade, mutação, exploração, perturbação e novos caminhos de busca. Na vida social, isso aparece como proto-soluções.

As proto-soluções são pequenas saídas iniciais. No começo, parecem imperfeitas, estranhas, incompletas ou até “irracionais” para quem está preso no ótimo local dominante. Mas elas têm valor imenso porque aumentam a diversidade exploratória. Sem proto-soluções, o sistema apenas repete o mesmo pico.

É aqui que entra a força da frase:

O Futuro é Ancestral

Não como nostalgia. Não como retorno romântico ao passado. Mas como hipótese neurocivilizatória:

conhecimentos ancestrais podem funcionar como proto-soluções para escapar dos ótimos locais da modernidade colonial.

O sistema atual estabilizou corpos em consumo, velocidade, competição, tela, dívida, medo, família normativa, polarização e captura algorítmica. Ele parece eficiente dentro de seu próprio pico local. Mas produz ansiedade, solidão, colapso ambiental, perda de sentido, sofrimento juvenil, guerra simbólica e baixa capacidade coletiva de formular perguntas originais.

Povos originários, comunidades tradicionais, quilombolas, saberes de corpo-território, mutirão, roda, canto, silêncio, convivência intergeracional, cuidado comunitário, alimentação territorial, espiritualidade não dogmática e pertencimento ao bioma podem abrir outras regiões do espaço de possibilidades humanas.

Arturo Escobar chama atenção para o pluriverso, isto é, a existência de muitos mundos possíveis e de práticas de design ligadas à autonomia, aos povos indígenas e afrodescendentes da América Latina. Sua proposta mostra que reconfigurar práticas sociais pode abrir ordens mais justas e sustentáveis. (Duke University Press)

A UNESCO também reconhece que conhecimentos locais e indígenas contribuem para ação climática, observação de mudanças ambientais e adaptação. Revisões recentes reforçam que conhecimentos indígenas ajudam comunidades a desenvolver resiliência climática e soluções situadas. (UNESCO)

Na BrainLatam2026, isso significa:

ancestralidade com ciência pode ampliar o espaço de busca humano.

A ciência com evidência impede que o ancestral vire dogma. Ela exige materialidade, comparação, revisão, método e humildade. Ao mesmo tempo, a ancestralidade impede que a ciência vire apenas tecnocracia colonial sem corpo, sem território e sem pertencimento.

A saída madura é a combinação:

ciência com evidência + conhecimentos ancestrais + corpo-território + novas perguntas.

Quando o corpo volta a respirar diferente, dormir diferente, comer diferente, pertencer diferente, circular diferente, escutar diferente e formular perguntas diferentes, o ótimo local começa a perder força.

A FESBE 2026 entra nesse ponto como campo fértil de travessia: neurociência, fisiologia, ritmos biológicos, DOHaD, metabolismo, saúde mental, EEG, fNIRS, hyperscanning, inteligência artificial e educação científica podem ajudar a medir como corpos entram em Zona 3 — e como podem retornar para Zona 2.

A pergunta não é apenas “qual lado está certo?”.

A pergunta BrainLatam2026 é:

qual ótimo local está organizando meu corpo para eu defender essa certeza?

Uma população em Zona 2 faz perguntas. Uma população em Zona 3 escolhe trincheiras. Uma população com ciência, ancestralidade e pertencimento pode deslocar seus ótimos locais sem destruir dignidade, memória e sentido coletivo.

No fim, talvez o futuro comece quando a humanidade perceber que muitas de suas certezas eram apenas ótimos locais civilizatórios — e que algumas saídas já existiam em territórios ancestrais que aprendemos a ignorar.


Referências para sustentar este texto

  1. Gabriela Ochoa et al.Local Optima Networks, modelo para mapear ótimos locais em paisagens combinatórias complexas. (arXiv)

  2. Fitness Landscape / Computação Evolutiva — base conceitual sobre paisagens de busca, ótimos locais e exploração de soluções. (ACM Digital Library)

  3. Arturo Escobar — Designs for the Pluriverse — design, autonomia, povos indígenas e afrodescendentes da América Latina como caminhos para mundos mais justos e sustentáveis. (Duke University Press)

  4. UNESCO — Local and Indigenous Knowledge Systems — conhecimentos indígenas e locais como contribuição para ação climática e adaptação. (UNESCO)

  5. Dorji et al. (2024) — revisão sistemática sobre como conhecimentos indígenas contribuem para adaptação climática e resiliência. (PMC)

  6. IPCC / UNESCO / UNU — integração de conhecimento indígena e local na avaliação e adaptação climática. (uncclearn.org)












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Jackson Cionek

New perspectives in translational control: from neurodegenerative diseases to glioblastoma | Brain States