Jackson Cionek
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EEG, Sono e Ciclo Menstrual: Elasticidade Antes da Performance

EEG, Sono e Ciclo Menstrual: Elasticidade Antes da Performance

Movimento das Águas, N1, N2, N3, REM Fásico e REM Tônico

Talvez a gente precise começar com uma frase simples:

nenhum corpo performa igual todos os dias.

A escola, o esporte, a música, o trabalho e a vida digital muitas vezes tratam o corpo como máquina linear: dormir, acordar, estudar, produzir, competir, responder. Mas corpos vivos são rítmicos. Respiramos em ciclos. Dormimos em ciclos. Aprendemos em ciclos. Menstruamos em ciclos. Sonhamos em ciclos.

Na linguagem BrainLatam2026, isso não é fraqueza. É elasticidade.

Elasticidade é a capacidade de ajustar a performance ao corpo real, em vez de forçar o corpo a obedecer a um calendário artificial de produtividade.

Movimento das Águas: o corpo não é máquina, é ciclo

Ao falar de conhecimentos ancestrais ameríndios, a gente precisa tomar cuidado para não tratar povos diferentes como se fossem uma única tradição. Cada povo tem sua língua, território, cosmologia e modo próprio de transmitir conhecimento.

Mas existe uma imagem que ajuda: o Movimento das Águas.

Em leituras decoloniais latino-americanas, especialmente nos conceitos de cuerpo-territorio e agua-cuerpo-territorio, corpo, água e território não aparecem como realidades separadas. Sofia Zaragocin propõe o conceito bilíngue agua-cuerpo-territorio / water-body-territory, aproximando corpo-território e território-água a partir de debates feministas decoloniais nas Américas. (ScienceDirect)

A água do rio não está separada da água do corpo. O suor, a lágrima, o sangue, o líquido amniótico e o oceano pertencem à mesma continuidade da vida.

O corpo que menstrua não está “falhando”.
Está mostrando maré.

O corpo que sonha não está “desligado”.
Está reorganizando águas internas.

O corpo que atravessa puberdade, TPM/SPM ou menopausa não está “instável”.
Está mudando o curso do rio.

A ideia de corpo-território, discutida em diálogo com feminismos indígenas e comunitários latino-americanos, reforça que violência contra o corpo e violência contra a terra não podem ser separadas, especialmente diante de extrativismo, colonialismo e catástrofe climática. (Revista ANPHLAC)

Na leitura BrainLatam2026:

o ciclo menstrual é Movimento das Águas.
O sono é Movimento das Águas.
O EEG registra ondas desse movimento.
A performance precisa aprender a navegar, não a represar.

EEG e fases do sono: N1, N2, N3, REM tônico e REM fásico

O sono não é um bloco único. Ele alterna entre NREM e REM. O NREM se divide em N1, N2 e N3. Em uma noite típica, o corpo atravessa ciclos de cerca de 90 a 110 minutos, repetindo essas fases várias vezes. (NCBI)

N1 é a entrada no sono. É a beira do rio. O corpo começa a sair da vigília, mas ainda escuta o mundo externo.

N2 é um sono mais estável. No EEG aparecem fusos do sono e complexos K, marcadores importantes para proteção do sono e consolidação de memória. É como se o corpo começasse a fechar algumas portas para proteger a travessia noturna. (NCBI)

N3 é o sono profundo de ondas lentas. É a água funda. O EEG mostra ondas delta, e o corpo entra em maior restauração, com menos abertura ao mundo externo. É também a fase que podemos aproximar da ideia de uma “lavagem cerebral” literal: durante o sono profundo, o sistema glinfático aumenta a circulação do líquido cerebrospinal e ajuda a remover resíduos metabólicos do cérebro. Em termos simples, enquanto o corpo mergulha em N3, o cérebro intensifica processos de limpeza, drenagem e reorganização. Por isso, dormir mal não é apenas “descansar pouco”; é reduzir a oportunidade de o cérebro lavar suas próprias águas internas. Revisões recentes descrevem a depuração glinfática como um processo de remoção de resíduos metabólicos por transporte de líquido cerebrospinal, com forte relação com a fisiologia do sono. (Physiology Journals)

Na imagem do Movimento das Águas, N3 é quando o rio interno corre mais fundo, levando embora restos do dia, excesso de tensão e resíduos do metabolismo cerebral.

O REM também não é homogêneo. Podemos pensar em REM tônico, mais contínuo, e REM fásico, marcado por rajadas de movimentos oculares rápidos. Estudos recentes indicam que esses microestados podem responder de modos diferentes a estímulos externos, sugerindo que até o “sono dos sonhos” tem camadas distintas de abertura e fechamento ao território. (OUP Academic)

Então não basta perguntar:

“dormiu bem?”

A pergunta BrainLatam2026 é:

o corpo conseguiu entrar em N1?
Permaneceu em N2?
Aprofundou em N3?
Deixou o cérebro lavar suas águas internas?
Atravessou REM tônico e REM fásico?
O ciclo menstrual, a dor, a vergonha, a tela, o calor ou a ansiedade alteraram essa travessia?

Sonhar também acontece no NREM

Durante muito tempo, o senso comum associou sonho principalmente ao REM. Hoje, o EEG mostra uma história mais complexa.

Um estudo de 2025 em Sleep Advances usou EEG de alta densidade e machine learning para classificar presença ou ausência de experiência de sonho durante o sono N2, uma fase NREM. O estudo trabalhou com relatos coletados após despertares e mostrou que a experiência onírica pode ser investigada também fora do REM. (OUP Academic)

Outro trabalho de 2025, publicado na Nature Communications, apresentou uma base de dados de EEG e mentação onírica com relatos em REM e NREM. O artigo mostra que relatos de experiência consciente podem ser previstos por características extraídas do EEG tanto em REM quanto em NREM. (Nature)

Isso é central.

O sonho não é apenas imagem forte do REM.
O sonho pode ser reorganização do Movimento das Águas em diferentes profundidades do sono.

N2 pode reorganizar informação.
N3 pode lavar, restaurar e estabilizar.
REM fásico pode intensificar imagens e emoções.
REM tônico pode manter outra forma de escuta do território.

Ciclo menstrual, puberdade e funções executivas

O ciclo menstrual não deve ser usado para reduzir ninguém. Não é argumento para dizer que meninas “pensam menos” ou que mulheres são “instáveis”. Essa leitura seria biologicamente pobre e socialmente perigosa.

O ponto é outro: o corpo muda, e a educação precisa aprender a escutar essas mudanças.

Um artigo de 2024 sobre dinâmicas cerebrais ao longo do ciclo menstrual mostrou que fases do ciclo e flutuações hormonais modulam dinâmicas de redes cerebrais em mulheres saudáveis, incluindo redes relacionadas a atenção, controle, saliência, processamento somatomotor e regiões subcorticais. (Nature)

Na adolescência, isso se torna ainda mais delicado. A menarca não é apenas um evento biológico. Ela reorganiza sono, pertencimento, vergonha, autocuidado, corpo-território e modo de estar na escola.

A TPM/SPM não deve ser piada. Também não deve ser desculpa para humilhação. Ela pode envolver dor, irritabilidade, cansaço, alteração de sono, dificuldade de foco e sensibilidade emocional. Em alguns dias, a melhor performance pode ser prova, treino, palco ou aula longa. Em outros, pode ser revisar, respirar, reduzir carga, dormir melhor e evitar exposição desnecessária.

Isso é elasticidade.

Funções executivas — atenção, inibição, flexibilidade cognitiva, memória de trabalho e planejamento — dependem de sono, estresse e ritmos do corpo. Uma revisão sistemática de 2024 sobre ciclo menstrual, ritmo circadiano e performance física concluiu que há sinais de interação entre horário do dia, fase do ciclo e performance, mas também reforçou que os resultados ainda exigem cautela por causa do número limitado de estudos e diferenças metodológicas. (Frontiers)

Na linguagem BrainLatam2026:

sono ruim reduz elasticidade.
Elasticidade baixa empurra para Zona 3.
Zona 3 transforma performance em sobrevivência.

Menopausa: o rio muda de curso

A menopausa também precisa sair do lugar de silêncio. Ela não é fim de inteligência, criação ou performance. É uma travessia corporal.

Uma revisão de 2023 sobre cognição na perimenopausa aponta que pesquisas recentes associam essa transição a possíveis dificuldades em velocidade de processamento, atenção e memória de trabalho. (The Australian)

Na imagem do Movimento das Águas, a menopausa não seca o rio. Ela muda o curso. O corpo pede outra escuta, outro ritmo, outra pedagogia de performance.

A pergunta para o Brain Bee

A pergunta científica é:

como ciclo menstrual, sono, sonho e transições hormonais modulam EEG, funções executivas e performance?

Um estudo BrainLatam2026 poderia acompanhar adolescentes e adultas ao longo de diferentes fases do ciclo, com consentimento, privacidade e sem exposição íntima. Poderíamos medir EEG de sono, EEG em tarefas de atenção, ECG/HRV, respiração, GSR, actigrafia, temperatura corporal, qualidade do sono, dor, energia percebida, memória de trabalho, controle inibitório, flexibilidade cognitiva e sensação de pertencimento.

A hipótese seria:

quando respeitamos N1, N2, N3, REM tônico, REM fásico, Movimento das Águas e corpo-território, a performance deixa de ser cobrança linear e vira elasticidade inteligente.

Fechamento

Elasticidade antes da performance.

Antes de cobrar foco, perguntar pelo sono.
Antes de cobrar resultado, perguntar pelo corpo.
Antes de chamar de instabilidade, perguntar pelo ciclo.
Antes de exigir constância, perguntar pelo Movimento das Águas.

Alta performance não começa no esforço. Começa na capacidade do corpo atravessar N1, N2, N3, REM tônico e REM fásico sem ser sequestrado por dor, estresse, vergonha, calor, tela ou cobrança linear.

O corpo que menstrua, amadurece, sonha e atravessa menopausa não é corpo menor.

É corpo-rio.
É APUS líquido.
É Mente Damasiana em maré.
É Movimento das Águas tentando manter vida, memória, sonho e performance em um mesmo território.


Referências pós-2021 usadas

Patel, A. K. et al. Physiology, Sleep Stages, StatPearls / NCBI Bookshelf, 2024. (NCBI)

Feriante, J. et al. Physiology, REM Sleep, StatPearls / NCBI Bookshelf, 2023. (NCBI)

Targeting Sleep Physiology to Modulate Glymphatic Brain Clearance. Physiology, 2024. (Physiology Journals)

Corbali, O. et al. Glymphatic system in neurological disorders and neurodegenerative diseases, Frontiers in Neurology, 2025. (Frontiers)

Zaragocin, S. Agua-cuerpo-territorio / Water-body-territory, Political Geography, 2024. (ScienceDirect)

D’Arcangelis, C. L.; Quiroga, L. Cuerpo-Territorio: Towards Feminist Solidarities in the Americas, Revista Eletrônica da ANPHLAC, 2023. (Revista ANPHLAC)

Moctezuma, L. A. et al. From high- to low-density EEG for automatic classification of dream experiences during stage 2 of NREM, Sleep Advances, 2025. (OUP Academic)

Wong, W. et al. A dream EEG and mentation database, Nature Communications, 2025. (Nature)

Ameen, M. et al. Differential Brain and Eye Responses to External Auditory Information in Phasic and Tonic REM Sleep, World Sleep, 2023; related abstract in Sleep, 2024. (Paris-Lodron-University Salzburg)

Avila-Varela, D. S. et al. Whole-brain dynamics across the menstrual cycle: the role of hormonal fluctuations and age in healthy women, npj Women’s Health, 2024. (Nature)

Beníčková, M. et al. Effect of circadian rhythm and menstrual cycle on physical performance in women: a systematic review, Frontiers in Physiology, 2024. (Frontiers)






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