Jackson Cionek
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Educação - da evidência ao chão da escola

Educação - da evidência ao chão da escola

Uma evidência científica pode dizer que determinada estratégia aumenta a probabilidade de aprendizagem.

Pode comparar métodos.

Medir atenção.

Avaliar memória.

Investigar funções executivas.

Produzir médias, intervalos de confiança e recomendações.

Mas existe um momento em que todo esse conhecimento precisa atravessar uma porta.

A porta da sala de aula.

E, quando atravessa, a evidência deixa de encontrar uma população estatística e passa a encontrar Corpos-Territórios reais, reunidos repetidamente durante um período de suas vidas.

Talvez seja aí que a educação fique mais interessante.

Porque o professor pode planejar o caminho.

Mas não consegue repetir o encontro.

O plano anual é o mapa - não é a experiência

O professor possui um plano anual.

Há conteúdos, objetivos, competências, avaliações e uma sequência prevista.

Existe, portanto, um percurso.

Mas percurso previsto e experiência vivida não são a mesma coisa.

Podemos imaginar uma turma como um pequeno grupo atravessando a Mata Atlântica.

Existe uma trilha.

Sabemos aproximadamente para onde estamos indo.

Mas, naquele dia, choveu.

Uma árvore caiu.

Um pássaro apareceu onde nunca havíamos visto.

Uma criança percebeu uma pegada.

Outra sentiu a mudança de temperatura.

Alguém ouviu primeiro um som.

Outro reconheceu uma planta.

Todos atravessam a mesma floresta.

Ninguém percebe exatamente a mesma floresta.

Na BrainLatam já propusemos pensar a Mata Atlântica não apenas como cenário, mas como uma espécie de gramática corporal: solo, temperatura, sons, cheiros, movimento e equilíbrio participam daquilo que um Corpo-Território consegue perceber. brainlatam

Na sala de aula ocorre algo semelhante.

O currículo pode indicar o caminho.

O plano anual organiza a trilha.

Mas cada trecho será encontrado por pessoas diferentes — inclusive por um professor que também está continuamente mudando.

Uma aula nunca acontece duas vezes

Imagine que um professor utilize exatamente os mesmos slides no ano seguinte.

Mesmo conteúdo.

Mesmo exercício.

Mesma sequência.

Ainda assim, aquela aula não se repetiu.

A turma é outra.

As perguntas são outras.

Os silêncios são outros.

As histórias familiares são outras.

Os conhecimentos prévios são outros.

E, principalmente, o professor também é outro, porque foi modificado pela turma anterior.

Podemos representar:

Professor₁ + Turma₁ → Professor₂

e depois:

Professor₂ + Turma₂ → Professor₃.

Da mesma maneira:

Aluno₁ + encontro → Aluno₂

e o encontro seguinte já não encontrará Aluno₁.

Esse talvez seja um ponto pouco considerado quando falamos em “aplicar” evidências educacionais.

A evidência pode ser replicável.

O encontro existencial não é.

A pesquisa latino-americana sobre formação docente vem justamente mostrando a importância da reflexão sobre a prática na produção do saber pedagógico. Em estudos chilenos, futuros professores valorizam a prática e a reflexão acompanhada como dimensões capazes de produzir conhecimento pedagógico que não nasce apenas da transmissão teórica. MDPI

A sala de aula pode construir um Jiwasa

Existe ainda outra particularidade.

Uma turma não é um encontro único.

Durante meses, um conjunto relativamente estável de Corpos-Territórios volta a se encontrar.

Na primeira semana, talvez existam apenas vinte ou trinta pessoas colocadas administrativamente numa mesma sala.

Depois começam as recorrências.

Um aluno descobre quem costuma ajudar.

Outro percebe quem precisa de mais tempo.

Alguém nota quando a professora está cansada.

A professora aprende quem responde imediatamente e quem precisa primeiro observar.

Um aluno que não compreendeu escuta a explicação de outro.

Uma pergunta inesperada muda a maneira como o professor apresenta o assunto.

Pouco a pouco, cada Corpo-Território passa a integrar parte do território perceptivo dos demais.

É aqui que podemos pensar a sala de aula como construção de um Jiwasa.

Na formulação BrainLatam, Jiwasa não significa que todos se tornam iguais.

O coletivo começa justamente quando diferentes maneiras de sentir, compreender e ocupar posições podem permanecer juntas sem que uma delas precise apagar as demais. brainlatam

Uma turma pode então produzir:

Turma₁ → encontros → Turma₂ → encontros → Turma₃...

Em dezembro, os nomes podem ser os mesmos de fevereiro.

A turma já não é a mesma.

Quem percebe primeiro não precisa ser sempre o professor

Isso não elimina a responsabilidade docente.

O professor continua responsável por planejamento, conhecimento pedagógico, cuidado, avaliação e orientação do percurso.

Mas ele não precisa ocupar todos os lugares perceptivos possíveis.

Como no grupo atravessando a floresta, alguém pode perceber primeiro aquilo que os outros ainda não viram.

Um aluno encontra uma ambiguidade.

Outro percebe uma regularidade matemática.

Outro relaciona o conteúdo a algo vivido em casa.

Outro faz a pergunta que reorganiza a compreensão da turma inteira.

Durante alguns minutos, a posição funcional mudou.

Isso não transforma o aluno em professor.

Nem retira a responsabilidade de quem ensina.

Significa apenas que o conhecimento relevante para o coletivo não precisa nascer sempre da mesma posição.

A literatura brasileira sobre neurociência e aprendizagem também destaca interação, conversação, heterogeneidade da turma e troca entre pares como elementos potencialmente ricos para a construção do conhecimento. SciELO

Talvez uma sala de aula seja mais inteligente quando consegue mudar temporariamente onde está o centro sem perder a responsabilidade de quem conduz o percurso.

E se o erro estiver mostrando outra parte da floresta?

Essa perspectiva também muda nossa relação com o erro.

Vinte e nove alunos respondem A.

Um responde C.

Talvez C esteja simplesmente errado.

Mas existe uma pergunta que deveria vir antes da correção:

o que esse aluno percebeu para chegar a C?

Talvez tenha interpretado mal uma instrução.

Talvez ainda não tenha construído um conceito necessário.

Mas talvez tenha identificado uma ambiguidade que os outros atravessaram sem perceber.

A diferença também é dado.

Costa, ao discutir neurociência e aprendizagem, destaca que erros podem participar produtivamente do processo quando encontram correção, reflexão e reorganização posterior. A autora também ressalta a necessidade de considerar ritmos diferentes, conhecimentos prévios e limites cognitivos momentâneos em um processo que é altamente dinâmico. SciELO

O objetivo da educação não é romantizar o erro.

É investigá-lo antes de transformá-lo em identidade.

Porque existe grande diferença entre:

“você errou esta resposta”

e

“você é aquele que erra”.

Do estado A ao estado B

É aqui que podemos falar em transcendência do aprender.

Não no sentido sobrenatural.

Mas como mudança concreta das possibilidades de um Corpo-Território.

Antes:

A - não sei, não compreendo, não reconheço, não vejo.

Acontece o encontro.

Uma explicação.

Uma experiência.

Uma pergunta.

Uma tentativa.

Um erro.

Outra explicação.

Uma conversa.

Então surge:

B - agora sei, agora compreendo, agora consigo reconhecer.

B não é simplesmente A com mais informação armazenada.

B consegue detectar algo que A não detectava.

Uma criança que aprende a ler passa a perceber palavras onde anteriormente poderia haver apenas formas gráficas.

Quem compreende determinada relação matemática passa a enxergar uma regularidade que estava fisicamente diante dele antes de ser percebida como relação.

O mundo não precisou mudar.

Mudou quem consegue encontrá-lo.

Na BrainLatam temos usado a formulação:

“O Ser não muda; o ser que mudou percebe o que foi mudado.”

Aqui, “Ser” não é uma entidade metafísica separada do Corpo. É a continuidade da percepção de Ser durante a transformação. O organismo muda, mas existe continuidade suficiente para dizer: “antes eu não entendia; agora entendo”. brainlatam

Talvez aprender seja justamente isso:

adquirir uma nova possibilidade de perceber e ser capaz de reconhecer que, antes, ela ainda não estava disponível.

Evidência não é receita

Isso não diminui a ciência.

Ao contrário.

A neurociência pode ajudar a compreender plasticidade, atenção, memória, emoções e funções executivas, mas sua contribuição precisa encontrar a pedagogia e as condições concretas da escola. Costa defende justamente a articulação — não a substituição — entre conhecimentos neurocientíficos e práticas pedagógicas. SciELO

Da mesma maneira, evidência educacional não deveria chegar ao professor como:

“a ciência mostrou; execute.”

Entre artigo e sala de aula existem muitas traduções:

evidência → síntese → princípio pedagógico → planejamento → professor → turma → resposta → avaliação → ajuste.

O professor não é o último elo passivo.

É parte do sistema que interpreta.

A prática docente reflexiva latino-americana mostra justamente que teoria e experiência precisam produzir retornos entre si. MDPI

Assim:

evidência ⇄ professor ⇄ alunos ⇄ relações ⇄ território.

Uma educação decolonial também pergunta quem produz o saber

Existe aqui um ponto epistemológico.

Se toda evidência chega pronta de fora e a escola apenas executa, o chão da escola torna-se mero local de aplicação.

Mas professores e estudantes também produzem perguntas.

Produzem observações.

Encontram limites dos métodos.

Criam adaptações.

Mostram aquilo que uma média não viu.

Pesquisadores brasileiros sobre pedagogias decoloniais vêm defendendo justamente a ampliação dos lugares de produção do conhecimento, incluindo releituras da educação popular e conceitos formulados desde experiências latino-americanas. SciELO Preprints

Então a escola não deveria ser o fim do percurso científico.

Pode ser também seu retorno:

pesquisa → escola → encontro → observação → nova pergunta → pesquisa.

Do chão da escola nasce outro chão

Talvez seja isso que signifique levar evidência ao chão da escola.

Não transformar ciência em receita.

Não transformar experiência docente em verdade absoluta.

Mas construir um circuito.

O plano anual oferece direção.

A melhor evidência disponível ajuda a escolher caminhos.

O professor conduz.

A turma responde.

O Jiwasa se transforma.

E cada encontro produz condições diferentes para o encontro seguinte.

No final do ano, talvez possamos perguntar muito mais do que:

“quanto conteúdo foi transmitido?”

Podemos perguntar:

o que esses Corpos-Territórios agora conseguem perceber que não conseguiam perceber quando começaram?

Porque ensinar talvez seja criar condições para que alguém atravesse um trecho da floresta e, em algum momento, diga:

“isso sempre esteve aqui — mas agora eu consigo ver.”

E talvez essa seja a transcendência cotidiana da aprendizagem:

o mundo continua diante de nós, mas o ser que aprendeu já possui novas possibilidades para encontrá-lo.

Referências

Costa, R. L. S. (2023). Neurociência e aprendizagem. Revista Brasileira de Educação, 28. https://doi.org/10.1590/S1413-24782023280010
Pesquisadora brasileira. Articula neuroplasticidade, atenção, memória, emoções e funções executivas às práticas pedagógicas, valorizando interação entre pares, heterogeneidade e reflexão sobre o erro. SciELO

Flores-Lueg, C. (2022). Reflective Processes Promoted in the Practicum Tutoring and Pedagogical Knowledge Obtained by Teachers in Initial Training. Education Sciences, 12, 583. https://doi.org/10.3390/educsci12090583
Pesquisa chilena que mostra a importância dos processos reflexivos e da dimensão experiencial na construção do saber pedagógico durante a formação docente. MDPI

Parra-Urrea, Y. E., & Pino-Fan, L. R. (2022). Proposal to Systematize the Reflection and Assessment of the Teacher’s Practice on the Teaching of Functions. Mathematics, 10, 3330. https://doi.org/10.3390/math10183330
Trabalho desenvolvido no Chile que propõe reflexão sistemática sobre a prática como parte da melhoria dos processos de ensino e aprendizagem. MDPI

Dias, A. S., & Abreu, W. F. (2022). Contribuições da pós-graduação brasileira em Educação às pedagogias decoloniais. Revista Teias. https://doi.org/10.12957/teias.2022.69360
Mapeia contribuições brasileiras às pedagogias decoloniais e destaca a produção de conceitos educacionais desde experiências e epistemologias latino-americanas. SciELO Preprints

Bravo, R., Granda, S., & Narváez, A. M. (Coords.). (2022). Prácticas educativas, pedagogía e interculturalidad. Editorial Abya-Yala.
Obra latino-americana que reúne pesquisas sobre saber docente, escola, interculturalidade, floresta, território e reflexão sobre a prática, mostrando a pluralidade dos espaços em que conhecimento pedagógico é produzido. SciELO Books

BrainLatam (2025). A Mata Atlântica é um lugar a ser preservado e uma gramática corporal a ser reaprendida.
Propõe a Mata Atlântica como Corpo-Território e gramática perceptiva, utilizada aqui como analogia para um percurso educacional em que diferentes posições revelam diferentes possibilidades de percepção. brainlatam

BrainLatam (2026). Jiwasa Verdadeiro.
Propõe que o coletivo começa não quando todos sentem ou percebem igualmente, mas quando diferenças podem permanecer juntas sem que o Ser individual seja apagado. brainlatam

BrainLatam (2026). Homeostase não é ficar parado — mudar para continuar existindo; Calor Latente — quando a transformação acontece sem aparecer na variável mais óbvia.
Desenvolvem a formulação “O Ser não muda; o ser que mudou percebe o que foi mudado”, utilizada aqui como ponte conceitual para pensar aprendizagem como transformação com continuidade da percepção de Ser. brainlatam











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Jackson Cionek

New perspectives in translational control: from neurodegenerative diseases to glioblastoma | Brain States