Jackson Cionek
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DREX CIDADÃO - QUEM RECEBE O DIVIDENDO DOS DADOS?

DREX CIDADÃO - QUEM RECEBE O DIVIDENDO DOS DADOS?

Do Corpo-Território ao Rendimento-Estado

Uma pessoa abre os olhos.

Antes de colocar os pés no chão, seu corpo já trabalhou durante toda a noite.

Respirou.

Reparou tecidos.

Organizou memórias.

Regulou temperaturas.

Sonhou.

Ao despertar, ela toca o celular. A plataforma registra o horário, a localização aproximada, a sequência dos cliques, o tempo diante de uma imagem e a velocidade com que abandona outra.

Seu corpo continua produzindo sinais.

Mas nenhum desses processos aparece em uma folha de pagamento.

A economia costuma chamar de trabalho apenas aquilo que pode ser contratado, medido, comandado e convertido em renda. Porém, do primeiro processo celular ao último gesto, a vida humana está continuamente em atividade.

Nem toda atividade produz mercadorias.

Nem toda atividade aumenta o patrimônio de alguém.

Nem toda atividade precisa gerar lucro para possuir valor.

Uma criança aprende uma palavra e amplia a língua.

Uma pessoa idosa preserva uma memória comunitária.

Uma mãe permanece acordada diante da febre de um filho.

Uma pessoa com mobilidade reduzida ensina a cidade a reconhecer barreiras que os demais corpos não percebiam.

Um jovem conversa com alguém que pensava em desistir.

Nenhum desses acontecimentos precisa aparecer no Produto Interno Bruto para sustentar uma sociedade.

Talvez o problema não seja apenas quem recebe pelo trabalho.

Talvez seja uma organização social que exige que cada vida prove sua utilidade antes de reconhecer seu direito de existir com dignidade.

Quando “trabalho” se torna uma palavra colonial

O problema não está apenas na origem da palavra “trabalho”.

Está no modo como a modernidade colonial organizou seu significado.

Trabalhar passou a significar colocar o corpo, o tempo e a atenção à disposição de uma estrutura externa de acumulação.

O senhor da terra.

O imperador.

A Coroa.

A fábrica.

O proprietário.

O banco.

A plataforma.

A pessoa produz, mas outra estrutura determina o que possui valor, quanto será pago e quem ficará com o excesso.

Atividades indispensáveis, como cuidar, cozinhar, escutar, ensinar, acompanhar crianças ou sustentar pessoas adoecidas, foram frequentemente tratadas como obrigações naturais, familiares ou femininas.

Ao mesmo tempo, operações financeiras capazes de obter rendimentos por juros, arbitragem, valorização de ativos ou oscilação de preços são reconhecidas como atividades econômicas sofisticadas, mesmo quando não produzem alimento, água, moradia ou melhoria concreta para a comunidade.

Isso não significa que todo crédito ou toda atividade financeira sejam inúteis. O financiamento pode viabilizar moradias, pesquisas, empresas e infraestruturas.

O problema aparece quando a economia remunera amplamente a circulação especulativa da riqueza, mas exige que o cuidado demonstre produtividade.

A financeirização também alcançou as famílias brasileiras. Estudos recentes mostram que a expansão do crédito pode aliviar necessidades imediatas, mas também aumentar vulnerabilidades estruturais, sobretudo quando pessoas de baixa renda precisam recorrer continuamente ao endividamento para sustentar a vida cotidiana. Em abril de 2026, o endividamento das famílias brasileiras no sistema financeiro correspondia a 49,8% da renda acumulada em doze meses. (MDPI)

A dívida compra o tempo futuro.

A plataforma captura o tempo presente.

Entre as duas, o Corpo-Território é mantido permanentemente ocupado.

Sociedades humanas não começaram abandonando quem não produzia

Existe uma ideia repetida sobre a humanidade: em sociedades antigas, somente os indivíduos fortes e produtivos conseguiriam sobreviver.

Os vestígios arqueológicos contam uma história mais complexa.

Pesquisadores argentinos estudaram o esqueleto de um caçador-coletor do Holoceno Tardio, na Patagônia, que sobreviveu a uma grave fratura no platô tibial. A lesão teria limitado intensamente sua locomoção. O processo de cicatrização indica que ele provavelmente recebeu ajuda direta para atividades básicas e, posteriormente, adaptações que lhe permitiram recuperar alguma autonomia. (Bicyt)

Em um estudo mais amplo, publicado em 2025, Victoria Romano, Gustavo Flensborg e Alejandro Serna analisaram restos de 189 indivíduos da Patagônia. Aproximadamente 20% apresentavam lesões traumáticas. Os casos mais graves teriam exigido cuidado intensivo e reorganização das atividades do grupo. Pessoas móveis alteraram suas rotinas para que pessoas temporária ou permanentemente imobilizadas continuassem vivas. (ScienceDirect)

No sítio de Windover, na Flórida, um jovem de aproximadamente 15 anos viveu com uma grave condição congênita da coluna, perda progressiva de mobilidade, infecções e atrofia de membros. A sobrevivência por tantos anos foi interpretada como evidência de atenção e cuidado continuados há cerca de 7.500 anos. (Wiley Online Library)

No Tennessee, a análise de uma jovem mulher do período Mississippiano identificou doença crônica, limitações físicas e prováveis práticas de cuidado. Sua permanência na comunidade não foi reduzida àquilo que seu corpo conseguia produzir materialmente. (Digital Commons)

Nos Andes, registros históricos e estudos recentes descrevem categorias específicas para pessoas com diferenças corporais, doenças crônicas e deficiências. No Tawantinsuyu, os hank’akuna podiam ser dispensados de determinadas obrigações, receber cuidado comunitário e ocupar funções relacionadas às suas possibilidades. Isso não transforma o Império Inca em uma sociedade universalmente benevolente, mas demonstra que incapacidade produtiva não significava necessariamente exclusão da existência social. (ResearchGate)

A arqueologia não consegue provar quais sentimentos motivaram cada cuidado.

Mas ossos cicatrizados conseguem demonstrar uma coisa:

alguém permaneceu vivo porque outras pessoas reorganizaram a vida ao seu redor.

A comunidade não perguntou primeiro quanto aquela pessoa produziria depois da recuperação.

Cuidou para que continuasse entre os seus.

O Corpo-Território não precisa merecer o Estado

Na hipótese BrainLatam, o Corpo-Território é — ou deveria ser — a unidade mínima do Estado.

O Estado não começa no palácio.

Não começa no banco central.

Não começa na empresa.

Não começa sequer no município.

Começa em cada corpo vivo, situado em uma comunidade, dependente de água, alimento, cuidado, vínculos e um Bioma.

O território não é apenas o espaço exterior ao corpo.

Ele entra pela respiração.

Pela água.

Pela comida.

Pela linguagem.

Pelo medo.

Pela informação.

Pelo afeto.

Se o Corpo-Território é a menor unidade do Estado, não deveria receber recursos públicos somente quando comprova pobreza, incapacidade ou produtividade.

Ele deveria participar permanentemente da riqueza estatal porque constitui o próprio Estado.

Daí nasce o Rendimento-Estado.

Ele não seria salário.

Não seria aposentadoria.

Não seria benefício emergencial.

Não seria caridade governamental.

Não seria pagamento por clicar, trabalhar ou fornecer dados.

Seria um fluxo monetário permanente, individual e incondicional entregue a cada Corpo-Território como expressão material de sua condição de cidadania.

Operacionalmente, poderia utilizar uma futura CBDC pública de varejo: o Drex Cidadão.

O Drex oficial brasileiro continua sendo desenvolvido e testado como infraestrutura financeira tokenizada. Ele ainda não corresponde a uma renda universal depositada diretamente pelo Estado para toda a população. O Drex Cidadão e o Rendimento-Estado são hipóteses BrainLatam, não funções atuais anunciadas pelo Banco Central. (Banco Central do Brasil)

O Estado não paga pela utilidade: reconhece sua menor unidade

O Rendimento-Estado não seria concedido porque todas as pessoas produzem o mesmo valor.

Seria concedido porque nenhuma pessoa deveria precisar produzir valor de mercado para ter direito à existência material.

Uma criança recebe porque é Corpo-Território.

Uma pessoa com deficiência recebe porque é Corpo-Território.

Uma pessoa desempregada recebe porque é Corpo-Território.

Uma pessoa idosa recebe porque é Corpo-Território.

Uma pessoa que produz muito também recebe porque o direito não depende da humilhação de provar necessidade.

A universalidade impede que o Estado transforme a renda em instrumento de obediência.

Nenhum governo poderia ameaçar retirar o rendimento porque a pessoa criticou uma autoridade, recusou determinado trabalho ou votou em outro partido.

O pagamento não compraria submissão.

Reconheceria pertencimento.

A diferença para muitas políticas de transferência estaria em seu fundamento.

Não seria apenas uma política contra a pobreza.

Seria uma reorganização constitucional:

se o Corpo-Território é a unidade mínima do Estado, parte da moeda pública deve começar por ele.

A atenção sequestrada também produz riqueza

Hoje, mesmo quando não estamos formalmente trabalhando, continuamos produzindo valor informacional.

O tempo de permanência diante de uma tela permite testar conteúdos.

A pausa revela interesse.

O deslocamento ajuda a prever rotinas.

As relações permitem formar perfis.

As emoções aumentam ou reduzem o engajamento.

Pesquisadores têm descrito como as plataformas combinam captura da atenção, análise massiva de dados e desenho comportamental para manter usuários conectados e ampliar a extração de informações. Nesse sistema, hábitos que pareciam pertencer à pessoa passam a ser reorganizados por ambientes digitais adaptativos. (arXiv)

O cidadão não é necessariamente empregado da plataforma.

Mas sua atenção participa da produção de receita.

Ela alimenta leilões publicitários, previsões, recomendações, treinamento de modelos e valorização empresarial.

O tempo foi capturado.

O dado foi extraído.

A previsão foi vendida.

E a pessoa recebeu uma nova propaganda.

O corpo é do cidadão; a mineração massiva pertence à soberania pública

Aqui retorna a analogia com o subsolo.

O terreno pode pertencer ao cidadão, mas os recursos minerais existentes sob ele são tratados constitucionalmente como bens públicos. Sua exploração depende de autorização e pode gerar participação nos resultados.

No mundo digital, o princípio poderia ser adaptado.

O corpo pertence ao cidadão.

Sua intimidade não pertence ao governo.

Sua religião, saúde, voz, rosto, conversas e deslocamentos continuam protegidos por direitos individuais.

O consentimento, quando necessário, continua sendo pessoal, informado e revogável. A LGPD reconhece a titularidade dos dados pessoais e assegura direitos de acesso, correção, eliminação, oposição e revisão. (Banco Central do Brasil)

Mas a mineração econômica massiva realizada sobre milhões de Corpos-Territórios não deveria ser tratada como relação puramente privada entre cada usuário e uma plataforma.

Quando milhões de rastros são reunidos para criar modelos, perfis e previsões, surge uma riqueza coletiva.

A proposta pode ser resumida assim:

O Corpo-Território pertence à pessoa.
A privacidade pertence à pessoa.
A mineração econômica massiva é submetida à soberania pública.
O dividendo retorna à população.

O Estado não seria proprietário dos pensamentos ou das conversas.

Seria responsável por regular a concessão econômica para extrair valor em grande escala.

Pagar pela concessão não legalizaria violações de privacidade.

Nenhuma contribuição compraria o consentimento.

Primeiro viriam os direitos.

Depois, os limites da exploração.

Por fim, a distribuição da riqueza.

Dos dados ao Rendimento-Estado

As receitas obtidas com a exploração econômica massiva dos dados poderiam integrar uma arquitetura mais ampla de financiamento e legitimação do Rendimento-Estado.

Ela poderia reunir:

contribuições sobre publicidade comportamental;

tributação da comercialização de perfis e previsões;

participação econômica no treinamento comercial de modelos;

royalties de recursos naturais;

receitas de infraestruturas coletivas;

fundos ambientais;

retornos associados ao Rendimento Bioma;

e emissão monetária pública submetida a regras transparentes.

Isso não significa que o Estado precisaria esperar arrecadar exatamente um real para distribuir um real.

Um Estado monetariamente organizado possui instrumentos de emissão, tributação, crédito e gestão macroeconômica.

A questão política é decidir onde a moeda começa a circular.

Hoje, grande parte do dinheiro chega à população como dívida.

Na proposta BrainLatam, uma parte começaria como pertencimento.

O Drex Cidadão seria a infraestrutura.

O Rendimento-Estado seria o direito.

A mineração de dados seria uma das fontes de devolução coletiva, mas não a condição para receber.

Mesmo a pessoa que não utiliza redes sociais continuaria sendo uma unidade do Estado.

NeuroDesafio Latam: quanto da vida retornaria se a atenção fosse nossa?

O NeuroDesafio Latam pode começar com uma experiência simples.

Imagine que todas as pessoas já recebem o Rendimento-Estado por meio do Drex Cidadão.

Imagine também que as comunidades recebem o Rendimento Bioma por preservar água, solos, florestas, manguezais e biodiversidade.

Agora abra uma rede social.

Pergunte:

Quanto tempo eu permaneceria aqui se minha sobrevivência não dependesse de visibilidade, promoção ou disponibilidade permanente?

Eu aceitaria os mesmos termos?

Toleraria a mesma quantidade de publicidade?

Permitiria o mesmo rastreamento?

Escolheria dedicar parte desse tempo à comunidade, ao cuidado, ao descanso, à arte ou ao território?

Em estudos experimentais, EEG e NIRS poderiam comparar políticas de privacidade simples e complexas, publicidade contextual e comportamental, remuneração com preservação ou renúncia de direitos e diferentes formas de explicação.

Essas tecnologias poderiam indicar esforço, confusão, conflito ou desistência.

Não poderiam decidir se uma pessoa consentiu livremente.

Também não poderiam calcular quanto vale uma vida.

O objetivo seria revelar quando uma interface exige tanto esforço que o cidadão termina aceitando sem compreender.

Mas a pergunta maior permaneceria política:

Que escolhas informacionais aparecem quando o Corpo-Território deixa de negociar sua privacidade a partir da necessidade?

A vida não é um currículo enviado ao Estado

Podemos voltar à pessoa que abriu os olhos.

Durante o dia, ela cuidará, lembrará, escolherá, esquecerá, ensinará, descansará e deixará rastros.

Algumas dessas atividades serão chamadas de trabalho.

Outras serão invisíveis.

Algumas gerarão salários.

Outras sustentarão vidas sem receber pagamento.

Mas nenhuma definirá sozinha o direito daquela pessoa de participar da riqueza pública.

Sociedades antigas reorganizaram seus movimentos para cuidar de corpos feridos.

Comunidades andinas criaram lugares sociais para diferentes configurações corporais.

Famílias ainda sustentam diariamente aquilo que a economia não sabe medir.

Talvez nosso modelo econômico não esteja avançado por transformar tudo em ativo.

Talvez esteja atrasado por ainda perguntar quanto um corpo produz antes de perguntar do que ele precisa para permanecer vivo.

O Rendimento-Estado afirma algo anterior ao mercado:

Você não recebe porque provou ser útil.
Você recebe porque o Estado começa em você.

O Drex Cidadão não seria o preço dos nossos dados.

Seria o reconhecimento de que cada Corpo-Território constitui a menor unidade de uma riqueza que sempre foi coletiva.

Referências essenciais

Romano, Victoria; Serna, Alejandro; Vega, Emiliano; Prates, Luciano. A disabling injury reveals interpersonal care among hunter-gatherers in Patagonia. Archaeological and Anthropological Sciences, 2022.

Romano, Victoria; Flensborg, Gustavo Ariel; Serna, Alejandro. Bone trauma and interpersonal care among Late Holocene hunter-gatherers from Patagonia, Argentina. International Journal of Paleopathology, 2025.

Correa Trigoso, Denis Elvis. Aproximación a las políticas públicas para personas con discapacidad física durante el Imperio incaico. Revista Española de Discapacidad, 2022.

Hechler, Ryan Scott. The Fourth Lifeway: Recognizing the Legacy of Bodily Difference and Disability within the Inka Empire. Disability Studies Quarterly, 2022.

Posada, Julian. Embedded reproduction in platform data work. Information, Communication & Society, 2022.

Miceli, Milagros; Posada, Julian. The Data-Production Dispositif. 2022.

Grohmann, Rafael et al. Click farm platforms: An updating of informal work in Brazil and Colombia. Work Organisation, Labour & Globalisation, 2022.

Grohmann, Rafael et al. Platform scams: Brazilian workers’ experiences of dishonest and uncertain algorithmic management. New Media & Society, 2022.

Braz, Matheus Viana; Mendes, Thiago Casemiro; Ferreira, Yasmin Alexandre. Ideologia gerencialista e plataformas de treinamentos de dados para Inteligência Artificial: condições de trabalho e saúde dos trabalhadores no Brasil. Reciis, 2022.

Ferreira, Camila Caroline de Oliveira. Endividamento da classe trabalhadora no Brasil: elementos para análise a partir da categoria superexploração da força de trabalho. Serviço Social & Sociedade, 2023.

Cabello, Sebastián M. Análisis de los modelos de gobernanza de datos en el sector público: una mirada desde Bogotá, Buenos Aires, Ciudad de México y São Paulo. CEPAL, 2023.

González Zepeda, Luz Elena; Martínez Pinto, Cristina Elena. Inteligencia artificial centrada en los pueblos indígenas: perspectivas desde América Latina y el Caribe. UNESCO, 2023.

Filgueiras, Fernando; Lui, Lizandro; Veloso, Maria Tereza Trindade. A Gramática Institucional da Proteção de Dados e da Privacidade no Brasil. Dados, 2025.

CEPAL; CENIA. Índice Latino-Americano de Inteligência Artificial 2025. 2025.

Banco Central do Brasil. Piloto Drex, Relatório da Primeira Fase e informações sobre moeda digital. Consultados em agosto de 2026.







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Jackson Cionek

New perspectives in translational control: from neurodegenerative diseases to glioblastoma | Brain States