Jackson Cionek
10 Views

Do neurônio ao Bioma - em qual escala começa o bem-estar?

Do neurônio ao Bioma -  em qual escala começa o bem-estar?

Quando as palavras começam a prender

Série Especial BrainLatam — SBNeC 2026

Talvez nosso título comece tarde demais.

Antes do neurônio havia uma célula-ovo.

Um zigoto inicia uma trajetória de divisões e diferenciações da qual surgirão tecidos especializados, inclusive aqueles que formarão o sistema nervoso. A biologia contemporânea continua mostrando como identidades celulares são progressivamente construídas por mudanças transcricionais e epigenéticas ao longo do desenvolvimento. (Nature)

Ainda não existe alguém dizendo:

“eu”.

Não existe memória autobiográfica.

Não existe Jiwasa.

Mas existe uma história começando.

E talvez possamos começar juntos exatamente aqui:

Nenhum cérebro começou sendo cérebro.

Recortamos para aprender

Agora avançamos.

Célula-ovo.

Embrião.

Tecidos.

Sistema nervoso.

Neurônios e glia.

Redes.

Organismo.

A Ciência pode interromper nossa lente em qualquer ponto.

Podemos estudar uma sinapse.

O metabolismo.

A frequência cardíaca.

Um comportamento.

Um relato de bem-estar.

Isso é o recorte.

E precisamos dele.

Recortar não significa destruir o fenômeno. Significa selecionar qual propriedade, relação ou escala queremos tornar observável.

O problema começa quando aquilo que recortamos para conhecer passa a ser tratado como se existisse sozinho enquanto vivemos.

Recortamos para aprender, não para Ser.

Por isso podemos seguir cinco movimentos:

contextualizar → recortar → medir → testar → reintegrar.

Todo recorte ganha precisão.

E perde alguma parte do contexto.

Quando alguma condição começa a ser sentida?

Aqui aparece outra diferença.

Uma célula pode responder ao meio.

Um organismo regula temperatura, pressão, glicose e inúmeras outras variáveis.

Mas regulação biológica e experiência consciente não são sinônimos.

Naquilo que BrainLatam chama de Mente Damasiana — uma elaboração nossa inspirada na neurobiologia de António e Hanna Damásio — interessa-nos especialmente a passagem em que estados corporais começam a participar continuamente de uma experiência sentida.

Em 2024, António e Hanna Damásio propuseram que uma mente consciente depende da geração contínua de sentimentos interoceptivos sobre o organismo, da produção de imagens a partir da perspectiva sensorial daquele organismo e da integração desses processos em subjetividade. (MIT Press Direct)

Isso separa duas perguntas que talvez estivéssemos confundindo:

Em qual escala surgem condições para o bem-estar?

e:

Em qual escala essas condições chegam a ser sentidas como bem-estar?

A primeira pode nos levar até o Bioma.

A segunda nos devolve ao corpo vivo.

O organismo regula-se, mas não no vazio

Aqui queremos acrescentar uma hipótese BrainLatam:

O Corpo-Território precisa de espaço e movimento para sinalizar e se regular.

“Espaço”, porém, não precisa significar apenas metros quadrados.

Pode existir:

espaço físico para mover-se;

espaço temporal para parar e recuperar-se;

espaço relacional para aproximar-se, afastar-se e sinalizar;

espaço territorial para caminhar, respirar, encontrar alimento, água e outras pessoas.

Respirar é movimento.

Mudar de postura é movimento.

Caminhar é movimento.

Aproximar-se e afastar-se também.

Essas ações modificam informações proprioceptivas, interoceptivas, cardiovasculares e sensoriais disponíveis ao organismo.

Não estamos dizendo que toda desregulação resulta de “falta de movimento”, nem que emoções ficam literalmente armazenadas esperando ser liberadas.

A hipótese é mais simples:

um organismo vivo precisa de possibilidades de variação para responder às mudanças que encontra.

Pesquisas recentes em neurociência social vêm justamente tentando deixar de medir apenas cérebro e incorporar simultaneamente corpo, movimento e ambiente às interações reais. Uma revisão de 2025, com forte participação de pesquisadores ligados ao Chile, descreve esse avanço em direção ao embodied hyperscanning e ao Mobile Brain/Body Imaging. (PubMed)

O cérebro que chega ao laboratório já viveu

Agora afastamos nossa lente.

Em 2025, Joaquín Migeot, Agustín Ibáñez, Sol Fittipaldi, Claudia Duran-Aniotz e uma ampla colaboração estudaram 2.211 participantes de seis países latino-americanos.

O modelo incluiu um exposoma social:

educação;

insegurança alimentar;

recursos financeiros;

acesso à saúde;

experiências da infância;

eventos traumáticos;

condições acumuladas durante a vida.

Esses fatores estiveram associados a cognição e funcionalidade e, em grupos com demência, também a características estruturais e funcionais cerebrais. (Nature)

Isso não demonstra:

território → neurônio, diretamente.

Entre ambos existem muitas setas.

Mas mostra por que não deveríamos tratar o cérebro como se tivesse chegado sozinho ao laboratório.

Nós chamamos esse organismo histórico e situado de Corpo-Território.

E então eu encontro você

Agora aparece outra escala.

Jiwasa.

Na língua aimara, trabalhos recentes de Saúl Bermejo-Paredes e Yanet Maquera-Maquera permitem pensar um “nós” inclusivo e relacional. BrainLatam utiliza Jiwasa como janela, não como tradução de cooperação ou cérebro coletivo. (SciELO México)

A pergunta muda.

Não apenas:

“do que eu preciso para me regular?”

Mas:

“que espaço nossas relações deixam para que cada Corpo-Território consiga sinalizar, variar e continuar participando?”

Em 2025, Ivo Leiva-Cisterna, Paulo Barraza, Eugenio Rodríguez e Guillaume Dumas foram além de observar correlações: manipularam experimentalmente sincronização inter-cerebral em díades e encontraram mudanças na coordenação cooperativa. (OUP Academic)

Isso não demonstra Jiwasa.

Mas mostra que algumas propriedades da ação aparecem na relação.

O nós não elimina o eu.

O nós reorganiza aquilo que cada eu consegue fazer.

E quem produz o espaço disponível para nós?

Agora nossa lente se afasta outra vez.

Um município decide parte de nossos espaços cotidianos.

Onde podemos caminhar?

Quanto tempo levamos nos deslocamentos?

Existem árvores?

Praças?

Ruído?

Espaços de encontro?

Em 2024, Adriano Bressane e colaboradores da UNESP encontraram associações entre dimensões do contato com áreas verdes urbanas — como frequência, duração, intensidade, naturalidade e infraestrutura — e medidas de bem-estar mental em cidades metropolitanas brasileiras. (PubMed)

Isso não significa:

árvore → felicidade.

Significa que podemos investigar uma sequência:

município
→ espaço disponível
→ possibilidades de movimento e encontro
→ comportamento
→ fisiologia
→ experiência.

Cada seta ainda precisa de evidência.

O Estado pode chegar até a respiração

Na Amazônia encontramos uma cadeia ainda mais concreta.

Paula Prist e colaboradores analisaram proteção de territórios indígenas, cobertura florestal, concentração de partículas PM2.5 e efeitos cardiovasculares e respiratórios.

O estudo estimou benefícios importantes de saúde associados à proteção desses territórios e à manutenção da floresta. (Nature)

Agora conseguimos acompanhar:

Estado / regras
→ proteção territorial
→ floresta
→ partículas atmosféricas
→ exposição
→ fisiologia.

Uma lei não respira.

Uma floresta não possui meus pulmões.

PM2.5 não sente sofrimento.

Mas uma decisão em uma escala pode alterar condições em outra.

A Ciência começa quando conseguimos demonstrar as setas.

Materialidade, informação e sentiência

O brasileiro Alfredo Pereira Jr., da UNESP, oferece outra lente.

No Monismo de Triplo Aspecto, ele propõe distinguir três aspectos fundamentais para compreender a experiência consciente:

materialidade do corpo vivo;

padrões dinâmicos de informação;

sentiência — capacidade de sentir. (ANPOF)

BrainLatam não afirma que um Estado ou um Bioma possuam necessariamente esses três aspectos como uma consciência humana.

Utilizamos a ideia como ferramenta para perguntar, em cada trecho da espiral:

O que mudou materialmente?

Que informação, sinal ou relação mediou a mudança?

Em algum ponto isso chegou a ser sentido?

Depois perguntamos:

causalidade?

mediação?

correlação?

hipótese?

analogia?

A espiral não autoriza um salto.

Ela torna o salto visível.

Do Bioma de volta ao ovo — e à morte

Ailton Krenak, em Futuro ancestral (2022), questiona nossa separação rígida entre existência humana, rios e território. Antônio Bispo dos Santos, em A terra dá, a terra quer (2023), oferece a confluência como janela para relações entre modos de vida, terra e outros viventes. (Companhia das Letras)

Eles não estão oferecendo biomarcadores.

Estão fazendo a pergunta anterior:

Por que decidimos que o bem-estar terminava na pele?

Podemos então enxergar nossa espiral:

célula-ovo
→ diferenciação
→ sistema nervoso
→ organismo
→ Mente Damasiana
→ Corpo-Território
→ Jiwasa
→ município
→ Estado
→ Bioma.

E voltar:

Bioma
→ condições materiais
→ regras
→ espaço vivido
→ relações
→ movimento e sinalização
→ regulação corporal
→ experiência sentida.

Até que aquele Corpo-Território morre.

Seus efeitos podem permanecer em outras pessoas, palavras, instituições e no território.

Mas continuidade de efeitos não demonstra continuidade da experiência consciente.

Nossa Ciência em primeira pessoa acompanha aquele organismo:

do ovo à morte.

E pode recortá-lo em qualquer ponto.

Só não deveria esquecer a história do que recortou.

Pergunta BrainLatam

Quando dizemos juntos que estamos “bem”, conseguimos descobrir quais condições começaram no Bioma, quais passaram pelo Estado e pelo território, quais abriram ou fecharam nosso espaço de movimento e relação — e quais realmente percorreram toda a espiral até se tornarem experiência sentida por nós?


Referências pós-2021

Krenak, A. (2022). Futuro ancestral. Companhia das Letras. (Companhia das Letras)

Santos, A. B. dos (2023). A terra dá, a terra quer. Ubu Editora / Piseagrama. (Piseagrama)

Pereira Jr., A.; Aguiar, V. J. de (2023). Fundamentos e aplicações da Sentiômica: a ciência da capacidade de sentir. Trans/Form/Ação, 46, 57–86. (SciELO)

Prist, P. R.; Sangermano, F.; Bailey, A. et al. (2023). Protecting Brazilian Amazon Indigenous territories reduces atmospheric particulates and avoids associated health impacts and costs. Communications Earth & Environment, 4, 34. (Nature)

Damasio, A.; Damasio, H. (2024). Homeostatic Feelings and the Emergence of Consciousness. Journal of Cognitive Neuroscience, 36(8), 1653–1659. A expressão Mente Damasiana é uma elaboração BrainLatam. (MIT Press Direct)

Bressane, A.; Pinto, J. P. C.; Goulart, A. P. G.; Medeiros, L. C. C. (2024). Which dimensions of nature contact in Urban Green Spaces most significantly contribute to mental wellbeing? Health & Place, 89, 103335. (PubMed)

Grasso-Cladera, A.; Costa-Cordella, S.; Mattoli-Sánchez, J.; Parada, F. J. et al. (2025). Embodied hyperscanning for studying social interaction. Social Neuroscience, 20(3), 163–179. (PubMed)

Leiva-Cisterna, I.; Barraza, P.; Rodríguez, E.; Dumas, G. (2025). Sensory multi-brain stimulation enhances dyadic cooperative behavior. Social Cognitive and Affective Neuroscience, 20(1), nsaf104. (OUP Academic)

Bermejo-Paredes, S.; Maquera-Maquera, Y. A. (2025). Lenguaje, comprensión del ser y transformación del sistema sexo-género en indígenas aimara del sur peruano. Perfiles Educativos, 47. (SciELO México)

Migeot, J.; Pina-Escudero, S. D.; Hernández, H.; Fittipaldi, S.; Duran-Aniotz, C.; Ibáñez, A. et al. (2025). Social exposome and brain health outcomes of dementia across Latin America. Nature Communications, 16, 8196. (Nature)

“Começamos no ovo porque nenhum cérebro começou sendo cérebro; recortamos para compreender a vida, sem esquecer que nenhum dos recortes viveu sozinho.”







#eegmicrostates #neurogliainteractions #eegmicrostates #eegnirsapplications #physiologyandbehavior #neurophilosophy #translationalneuroscience #bienestarwellnessbemestar #neuropolitics #sentienceconsciousness #metacognitionmindsetpremeditation #culturalneuroscience #agingmaturityinnocence #affectivecomputing #languageprocessing #humanking #fruición #wellbeing #neurophilosophy #neurorights #neuropolitics #neuroeconomics #neuromarketing #translationalneuroscience #religare #physiologyandbehavior #skill-implicit-learning #semiotics #encodingofwords #metacognitionmindsetpremeditation #affectivecomputing #meaning #semioticsofaction #mineraçãodedados #soberanianational #mercenáriosdamonetização
Author image

Jackson Cionek

New perspectives in translational control: from neurodegenerative diseases to glioblastoma | Brain States