Jackson Cionek
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Antes da palavra - o corpo já aprende

Antes da palavra - o corpo já aprende

Quanto do que acreditamos começou antes de sabermos explicar?

Talvez possamos começar sem uma definição.

Imagine uma criança observando alguém preparar um alimento. Ela acompanha as mãos, percebe a força, o ritmo, a espera. Em algum momento tenta fazer também. Erra. Tenta outra vez. Ajusta o movimento.

Ninguém precisou explicar tudo.

Agora imagine essa mesma criança diante de uma situação diferente. Um adulto muda o tom de voz. Os outros ficam em silêncio. Alguém se afasta. Ela talvez ainda não saiba dizer "perigo", "conflito", "respeito" ou "medo", mas alguma coisa já começou a ser percebida.

O corpo participa antes que exista uma boa frase para contar o que aconteceu.

Nós aprendemos assim durante muito tempo. Observando, acompanhando, imitando, repetindo, diferenciando. Algumas aprendizagens depois ganharão nomes. Outras talvez permaneçam difíceis de explicar por toda a vida.

Isso nos coloca diante da primeira pergunta desta série:

quanto do que hoje conseguimos explicar com palavras começou quando ainda não tínhamos palavras para explicar?

Antes de investigarmos quando as palavras começam a prender, precisamos olhar para esse espaço anterior, não necessariamente anterior à linguagem em sentido cronológico, mas anterior à explicação.

O momento em que alguma coisa já está acontecendo conosco e ainda não sabemos exatamente o que dizer sobre ela.

Yãy hã mĩy e o cuidado de não traduzir rápido demais

Na exposição Mundos Indígenas, realizada pela UFMG com curadoria dos próprios povos participantes, Sueli Maxakali e Isael Maxakali apresentam yãy hã mĩy associado às transformações, às mudanças e ao fluxo do tempo. A imagem pode se transformar, uma história pode se transformar e a própria pessoa também pode se transformar.

Precisamos ter cuidado aqui.

Não estamos dizendo que yãy hã mĩy significa simplesmente "imitar". Fazer isso seria justamente cometer o erro que queremos observar nesta série: encontrar rapidamente uma palavra conhecida e fazê-la ocupar o lugar de algo muito mais amplo.

Podemos, porém, deixar que esse conceito nos provoque.

O que acontece quando observamos uma transformação e, ao participar dela, também nos transformamos?

Uma criança aprende somente quando alguém explica o que ela está vendo?

Ou parte da aprendizagem acontece enquanto ela olha, toca, acompanha, experimenta e se reorganiza na relação com o que acontece?

Talvez não precisemos escolher entre corpo e palavra.

Talvez possamos perceber que a palavra chega a um Corpo-Território que já estava em movimento.

Há coisas que aprendemos enquanto fazemos

Célia Xakriabá conta no mesmo catálogo uma lembrança muito bonita da infância. Na escola, as crianças precisavam levar trabalhos de barro feitos a partir do que aprendiam com seus familiares. Ela recorda moldar um passarinho no caminho e colocar um grão de feijão em seu olho. Dias depois, o feijão brotou.

Mais tarde, experiências como essa reaparecem em sua elaboração de corpo-território. O conceito não aparece como algo simplesmente recebido de fora. Ele vai sendo costurado a partir de histórias, escutas, relações, cerâmica, território e experiências vividas.

Talvez nós reconheçamos algo semelhante em nossas próprias vidas.

Há coisas que sabemos fazer e temos dificuldade de ensinar.

Há situações em que percebemos que "alguma coisa mudou", mas ainda não sabemos dizer o quê.

Há pessoas diante das quais nosso corpo se aproxima ou se afasta antes de construirmos uma explicação.

Há músicas que modificam nosso estado antes que consigamos falar sobre elas.

Há movimentos que somente compreendemos depois de conseguir realizá-los.

Isso não significa que o corpo possua uma espécie de verdade secreta.

Significa apenas que aprendizagem e experiência não dependem sempre de uma formulação verbal prévia.

Pesquisas recentes sobre infâncias indígenas no Brasil também questionam a ideia de uma infância universal separada da vida comunitária. Leiliane Domingues da Silva e Dagmar de Mello e Silva discutem aprendizagens ligadas à participação, às relações e aos diferentes modos culturais de viver a infância. (UFG Journals)

Talvez possamos então substituir uma sequência muito comum:

alguém explica -> eu entendo -> depois faço

por uma sequência mais aberta:

eu encontro -> observo -> participo -> tento -> sinto diferenças -> começo a aprender -> depois talvez consiga explicar.

Corpo-Território não aprende sozinho

Também precisamos abandonar a imagem de um corpo isolado recebendo informações.

Aprendemos com alguém.

Aprendemos em algum lugar.

Aprendemos em determinadas condições.

Aprendemos enquanto outros corpos reagem ao que fazemos.

Braulina Aurora, em sua pesquisa sobre indígenas mulheres e corpo-território em movimento, desenvolvida na Universidade de Brasília, aproxima corpo, território, experiência, memória e produção de conhecimento. Sua dissertação foi defendida em 2022 e registrada no repositório da UnB em 2023. (UnB Repository)

Ailton Krenak, em Futuro ancestral, de 2022, também nos convida a deslocar a experiência humana de um indivíduo separado do mundo para relações que continuam atravessadas pela Terra, pelos rios e pela ancestralidade. (Companhia das Letras)

Não precisamos juntar esses pensamentos como se dissessem a mesma coisa.

Podemos apenas deixar que eles ampliem nossa pergunta.

Onde termina o que eu aprendi e começa o ambiente no qual aprendi?

Talvez essa fronteira seja menos nítida do que gostamos de imaginar.

A arqueologia também encontra aprendizagens sem frases

A arqueologia latino-americana nos oferece outra perspectiva.

Quando Eduardo Góes Neves reconstrói milhares de anos de história indígena na Amazônia Central, encontramos populações transformando paisagens, manejando plantas, produzindo solos e construindo modos de viver muito antes de essas experiências chegarem até nós como livros ou tratados. Sob os Tempos do Equinócio, publicado em 2022, reúne parte dessa longa história. (USP Repository)

A arqueologia não consegue nos dizer exatamente o que uma pessoa sentiu há milhares de anos.

Mas consegue mostrar que conhecimento também deixa marcas no fazer.

Uma técnica pode permanecer numa cerâmica.

Uma escolha pode modificar uma paisagem.

Uma sequência de práticas pode atravessar gerações.

Nem todo conhecimento precisa chegar ao futuro na forma de uma frase.

Isso talvez nos ajude a perceber algo que parece simples, mas muda bastante nossa perspectiva:

o conhecimento humano não mora apenas nas palavras que sobreviveram.

E o cérebro? O que conseguimos observar?

A neurociência pode entrar aqui, mas precisamos resistir à vontade de pedir que ela "prove" tudo isso.

Em 2022, Dashtestani e colaboradores utilizaram simultaneamente EEG e fNIRS para investigar pessoas observando ações realizadas ao vivo e executando ações.

O EEG acompanha mudanças elétricas cerebrais com grande resolução temporal. A fNIRS acompanha alterações hemodinâmicas corticais associadas à atividade neural.

Ao combinar as duas técnicas, os pesquisadores encontraram componentes compartilhados entre redes envolvidas na observação e na execução de ações, incluindo participação parietal. (Nature)

Isso não prova que observar seja aprender.

Não prova yãy hã mĩy.

Não prova corpo-território.

E não demonstra que toda imitação produza conhecimento.

Mas nos permite observar algo interessante: antes que alguém precise formular uma explicação sobre o movimento observado, o cérebro já está participando daquela observação de maneira organizada e mensurável.

A experiência não fica esperando a frase chegar.

Mas aquilo que aprendemos antes das palavras também pode nos prender

Esse é o ponto em que nossa reflexão precisa ficar mais desconfortável.

Aprender corporalmente não significa aprender a verdade.

Podemos aprender um gesto útil.

Podemos aprender cuidado.

Podemos aprender o ritmo de um trabalho.

Mas também podemos aprender medo.

Podemos aprender a recuar quando determinado tipo de pessoa aparece.

Podemos aprender que alguma coisa "não é para nós".

Podemos aprender vergonha observando a reação dos outros.

Podemos aprender uma associação que fez sentido em determinado momento e deixou de fazer sentido depois.

Danilo Silva Guimarães, ao discutir a Psicologia Indígena em 2022, chama atenção justamente para o risco de tomarmos categorias construídas em determinados sistemas culturais como se fossem descrições universais da experiência humana. (SciELO)

Essa observação será importante durante toda esta série.

O corpo pode aprender.

O corpo pode sentir.

O sentir pode ser intenso.

E ainda assim precisamos continuar perguntando o que aquilo significa.

Sentir não é o mesmo que verificar uma verdade.

Quando chegam as palavras

Em algum momento, uma palavra encontra aquilo que já estava acontecendo.

"Medo."

"Amor."

"Família."

"Perigo."

"Deus."

"Vergonha."

"Meu."

"Deles."

A palavra pode ser uma ferramenta extraordinária.

Ela nos permite compartilhar uma experiência, pedir ajuda, ensinar, lembrar, imaginar, combinar aquilo que vivemos com o que outras pessoas viveram.

Mas talvez seja importante guardar uma pequena abertura.

A palavra chegou depois de muita coisa já ter acontecido.

Ela não é necessariamente a experiência.

Ela é uma forma possível de nos relacionarmos com a experiência.

E talvez possamos terminar este primeiro encontro justamente aí, antes de avançarmos.

Sem abandonar as palavras.

Sem desconfiar do corpo.

Sem precisar escolher qual dos dois possui a verdade.

Apenas permanecendo por alguns instantes diante da pergunta:

quanto do que acreditamos hoje começou em experiências para as quais ainda não tínhamos palavras?

E, quando finalmente aprendemos a nomeá-las...

o que aconteceu quando começamos a confundir o nome que encontramos com aquilo que havíamos vivido?

É desse ponto que parte o próximo blog.

Referências principais

AURORA, Braulina. Indígenas mulheres: corpo território em movimento. Universidade de Brasília, defesa em 2022. (UnB Repository)

DASHTESTANI, H. et al. Structured sparse multiset canonical correlation analysis of simultaneous fNIRS and EEG provides new insights into the human action-observation network. Scientific Reports, 2022. (Nature)

GUIMARÃES, Danilo Silva. A Tarefa Histórica da Psicologia Indígena diante dos 60 anos da Regulamentação da Psicologia no Brasil. Psicologia: Ciência e Profissão, 2022. (SciELO)

KRENAK, Ailton. Futuro ancestral. Companhia das Letras, 2022. (Companhia das Letras)

NEVES, Eduardo Góes. Sob os Tempos do Equinócio: oito mil anos de história da Amazônia Central. 2022. (USP Repository)

SILVA, Leiliane Domingues da; SILVA, Dagmar de Mello e. O que pode a educação das crianças indígenas ensinar para as escolas voltadas para a educação das infâncias? Inter-Ação, 2022. (UFG Journals)

Mundos Indígenas. Espaço do Conhecimento UFMG, 2020. Mantido como fonte primária para yãy hã mĩy e corpo-território, apesar de anterior a 2021.






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Jackson Cionek

New perspectives in translational control: from neurodegenerative diseases to glioblastoma | Brain States