Jackson Cionek
19 Views

A transição que nunca chega: fake news, expectativa e as “72 horas”

A transição que nunca chega: fake news, expectativa e as “72 horas”

Quando continuamos caminhando em direção a um B que muda de lugar

Setenta e duas horas.

Talvez eu nem saiba exatamente de onde veio esse número.

Mas alguém em quem confio enviou.

Outro repetiu.

Vejo um vídeo.

Depois outro.

Há pessoas esperando.

Talvez eu não tenha certeza de que aquilo acontecerá. Mas alguma coisa começa a acontecer em mim apenas porque pode acontecer.

Setenta e duas horas não parecem tanto tempo.

Consigo esperar.

Enquanto espero, começo a observar sinais.

Uma fala parece importante.

Um silêncio parece ainda mais importante.

Uma movimentação qualquer ganha outro peso.

Cada nova informação pode parecer uma peça de algo que ainda não consigo enxergar inteiro.

E, pouco a pouco, minha pergunta talvez deixe de ser:

“Isso vai acontecer?”

e se transforme em:

“Quando vai acontecer?”

Algo mudou sem que eu percebesse exatamente quando.

O B que antes era uma possibilidade começou a participar do meu presente.

E então as 72 horas terminam

No Brasil de 2022, depois do segundo turno presidencial, circularam entre grupos de apoiadores de Jair Bolsonaro mensagens afirmando que o artigo 142 da Constituição previa algum tipo de intervenção militar após 72 horas de protestos ou de silêncio presidencial.

O texto constitucional não estabelece esse prazo. O artigo 142 descreve as funções das Forças Armadas, e o Supremo Tribunal Federal registra que essas funções são incompatíveis com um suposto papel de “poder moderador” entre os Poderes. (Lupa)

Mas talvez possamos permanecer por um instante antes de olhar para isso apenas como uma checagem de fatos.

Imaginemos que eu tenha esperado.

Não ironicamente.

Não como alguém visto de fora.

Eu esperei.

Talvez tenha sentido esperança.

Talvez medo.

Talvez pertencimento.

Talvez tenha conversado durante três dias com pessoas que sentiam algo parecido.

E então o relógio chega onde deveria chegar.

Nada do que eu esperava acontece.

O que existe naquele instante?

Por alguns segundos, talvez haja apenas uma diferença.

Aquilo que eu esperava e aquilo que o mundo apresentou não coincidem.

O pequeno espaço que aparece quando o mundo nos contraria

A ciência possui diferentes modelos para estudar o que acontece quando expectativa e acontecimento deixam de coincidir.

Um dos nomes encontrados nesse campo é prediction error: a diferença entre aquilo que era esperado e aquilo que efetivamente ocorreu.

Mas talvez não precisemos começar pelo termo.

Podemos ficar um pouco dentro da experiência.

Eu tinha uma previsão.

O mundo respondeu de outro modo.

Agora alguma coisa precisa acontecer entre os dois.

Talvez eu pense:

“Então eu estava errado.”

Mas talvez outra possibilidade apareça quase imediatamente:

“Eu entendi o prazo errado.”

“Há alguma coisa acontecendo que ainda não posso ver.”

“O plano mudou.”

“Precisamos esperar um pouco mais.”

Depois das eleições de 2022, novas teorias de conspiração realmente surgiram quando expectativas anteriores não se concretizaram, deslocando a promessa para outros eventos e novos acontecimentos supostamente iminentes. (Lupa)

E talvez aqui comecemos a perceber alguma coisa juntos.

B não precisa desaparecer quando B não chega.

B pode simplesmente mudar de lugar.

A → expectativa de B → B não acontece → novo B.

E depois:

novo prazo.

novo sinal.

nova expectativa.

O movimento continua.

Mas eu não estou fingindo o que sinto

Talvez aqui apareça uma dificuldade.

Se alguém me diz que a narrativa estava errada, posso ouvir algo diferente:

“Tudo aquilo que você viveu foi falso.”

Mas foi?

Minha ansiedade aconteceu.

Minha esperança aconteceu.

As conversas aconteceram.

O pertencimento aconteceu.

A vigília aconteceu.

Talvez eu tenha orado.

Talvez tenha chorado.

Talvez tenha sentido que fazia parte de algo muito maior do que eu.

Nada disso precisa ser inventado para que a explicação factual esteja errada.

A BrainLatam já percorreu essa diferença usando uma cena simples: vemos algo escuro perto de uma porta, sentimos medo e depois descobrimos que era apenas um casaco.

O medo não deixa de ter acontecido porque o objeto foi interpretado incorretamente.

O sentir é verdadeiro como experiência. A explicação do sentir continua aberta. (brainlatam)

Talvez eu consiga levar essa distinção comigo até aquelas 72 horas.

O que eu senti não precisa ser humilhado para que eu consiga perguntar novamente o que ocorreu no mundo.

Essa pequena separação talvez seja decisiva.

Então a frase aparece novamente

“72 horas.”

Já ouvi antes.

Quando encontro uma frase conhecida, alguma coisa nela é diferente de uma frase completamente nova.

Ela chega com familiaridade.

E familiaridade pode participar da maneira como julgamos verdade.

Uma revisão de 2024 sobre o illusory truth effect mostra que a repetição pode aumentar, em média, a percepção de veracidade de uma afirmação, inclusive no caso de desinformação e até de algumas alegações que entram em conflito com conhecimento anterior. Isso não significa que toda repetição convença qualquer pessoa; o efeito depende de contexto e possui limites. (ScienceDirect)

Talvez reconheçamos algo cotidiano.

Uma frase na primeira vez parece estranha.

Na quinta vez já não parece tão estrangeira.

Na décima, talvez eu nem consiga lembrar quando a encontrei pela primeira vez.

E quando uma informação já parece conhecida, talvez compartilhar também se torne mais fácil. Em experimentos, Vellani e colaboradores encontraram maior intenção de compartilhar informações repetidas, mediada em parte pelo aumento de precisão percebida. (ScienceDirect)

Não significa que minha mente foi “hackeada”.

Talvez signifique apenas que repetição também participa do terreno no qual minha sensação de familiaridade é construída.

E se abandonar a frase significar perder mais do que a frase?

Agora aparece outra coisa.

Eu não estava esperando sozinho.

Há pessoas ao meu redor.

Talvez o grupo tenha me acolhido quando eu estava com medo.

Talvez algumas amizades tenham começado ali.

Talvez finalmente eu tenha encontrado gente que parecia compreender aquilo que eu sentia.

Então, quando alguém pergunta:

“E se essa explicação estiver errada?”

talvez meu Corpo-Território não escute apenas uma pergunta sobre fatos.

Talvez escute:

“E se você não pertencer mais?”

Pesquisas contemporâneas sobre crença política discutem justamente como objetivos de identidade social e busca por precisão podem coexistir e, em algumas circunstâncias, entrar em tensão. O modelo não afirma que pertencimento necessariamente produz crença falsa, mas ajuda a entender por que algumas informações podem estar ligadas não apenas ao que pensamos, mas também a quem sentimos que somos junto aos outros. (ScienceDirect)

Talvez agora seja mais fácil perceber por que corrigir uma frase não apaga imediatamente todo o mundo construído ao redor dela.

O prazo acabou, mas algo continua quente

Talvez possamos voltar ao Calor Latente.

Não como física aplicada à política.

Como metáfora.

Há pessoas esperando.

Há mensagens circulando.

Há atenção.

Há deslocamento.

Há ansiedade.

Há pertencimento.

Há investimento emocional.

Muita coisa está acontecendo.

Mas a transformação prometida não chega.

É como se toda essa mobilização permanecesse concentrada no quase.

B está sempre perto o suficiente para organizar A.

Mas nunca perto o suficiente para se tornar presente.

E talvez seja exatamente isso que torna uma transição prometida diferente da transição que experimentamos no Blog 02.

No Blog 02, podíamos fruir o entre A e B porque reconhecíamos que não sabíamos ainda o que seria B.

Aqui acontece algo diferente.

O entre começa a ser ocupado por uma certeza sobre B.

E quando B falha, outra certeza precisa surgir rapidamente para impedir que o intervalo volte a ficar aberto.

Talvez exista uma fresta antes da próxima explicação

Voltemos àquele instante.

As 72 horas terminaram.

Antes do próximo vídeo.

Antes do próximo áudio.

Antes da nova interpretação.

Existe talvez um intervalo minúsculo.

Não aconteceu.

Ainda não transformei isso em outra história.

Por alguns segundos, aquilo que eu esperava e aquilo que aconteceu estão apenas diante de mim.

Talvez este seja um dos lugares mais interessantes do W40/2026.

Porque aquilo que parece fracasso de uma previsão também pode ser uma abertura.

Não necessariamente para mudar de candidato.

Não necessariamente para abandonar uma ideologia.

Nem para aceitar imediatamente a interpretação de quem está do outro lado.

Talvez apenas para conseguir permanecer diante da diferença.

Eu esperava algo. Algo diferente aconteceu.

E se eu não preencher imediatamente esse espaço?

O que aparece?

Talvez seja aí que Metanoia possa começar.

Não como conversão política.

Mas como uma mudança na relação entre mim e minha própria certeza.

Jiwasa não precisa de um vencedor nesse instante

Talvez eu tenha acreditado.

Talvez você não.

Ou talvez aconteça o contrário em outro assunto.

Saúde.

Religião.

Mercado.

Relacionamentos.

Tecnologia.

Todos nós podemos construir futuros que começam a organizar o presente antes de existirem.

Jiwasa talvez apareça quando não precisamos transformar quem errou em alguém menor para que a realidade possa ser reconhecida.

Posso dizer:

“Aquilo que você sentiu aconteceu.”

E você talvez consiga responder:

“Mas aquilo que eu esperava não aconteceu.”

Nenhuma das duas frases precisa destruir a outra.

Talvez esse seja um tipo diferente de transcendência.

Não transcender os fatos.

Mas transcender, por alguns instantes, a necessidade de fazer os fatos obedecerem à nossa expectativa.

O pertencimento pode continuar existindo.

A dignidade pode continuar existindo.

O sentir pode continuar existindo.

E, ainda assim, a realidade pode nos contrariar.

Talvez a transição que nunca chega só continue eternamente enquanto B puder mudar de lugar todas as vezes que o mundo disser “não”.

E talvez a Metanoia não esteja escondida na próxima promessa.

Talvez esteja naquele pequeno instante em que B não chegou — e nós conseguimos permanecer juntos diante do que realmente aconteceu antes de inventarmos outro B.


Referências comentadas

Supremo Tribunal Federal — Constituição Federal, Art. 142.
O que esta referência representa: devolve a narrativa ao texto verificável. O artigo 142 define atribuições constitucionais das Forças Armadas e não estabelece o prazo de 72 horas nem um papel de poder moderador. No percurso do blog, é o momento em que aquilo que foi sentido encontra aquilo que pode ser consultado fora do sentir. (Supremo Tribunal Federal)

Agência Lupa. (2022). Artigo 142 da Constituição não prevê intervenção militar após 72h de protestos.
O que esta referência representa: documenta a circulação histórica da falsa alegação das “72 horas” após o segundo turno de 2022. É o ponto factual a partir do qual conseguimos entrar, sem ridicularizar a experiência humana, na diferença entre expectativa e acontecimento. (Lupa)

Agência Lupa. (2022). Teorias da conspiração alimentam redes bolsonaristas após derrota.
O que esta referência representa: mostra que, quando algumas previsões não se concretizaram, outras narrativas apareceram. Ajuda-nos a enxergar a estrutura B não chega → B muda de lugar, que é o coração deste Blog 03. (Lupa)

Ecker, U. K. H., Lewandowsky, S., Cook, J., et al. (2022). The psychological drivers of misinformation belief and its resistance to correction. Nature Reviews Psychology, 1, 13–29.
O que esta referência representa: mostra que corrigir uma informação não significa necessariamente retirar imediatamente sua influência sobre raciocínio e memória. O mundo explicativo construído ao redor de uma afirmação pode continuar participando do pensamento mesmo após a correção. (Nature)

Udry, J., & Barber, S. J. (2024). The illusory truth effect: A review of how repetition increases belief in misinformation. Current Opinion in Psychology, 56, 101736.
O que esta referência representa: permite perceber por que uma frase repetida pode começar a “soar” diferente de uma afirmação nova. Familiaridade e verdade não são a mesma coisa, mas a repetição pode aproximá-las subjetivamente. (ScienceDirect)

Vellani, V., Zheng, S., Ercelik, D., & Sharot, T. (2023). The illusory truth effect leads to the spread of misinformation. Cognition, 236, 105421.
O que esta referência representa: acrescenta movimento ao fenômeno: aquilo que se tornou mais familiar pode também tornar-se mais compartilhável. A expectativa deixa de habitar apenas um indivíduo e passa a circular entre Corpo-Territórios. (ScienceDirect)

Van Bavel, J. J., Rathje, S., Vlasceanu, M., & Pretus, C. (2024). Updating the identity-based model of belief: From false belief to the spread of misinformation. Current Opinion in Psychology, 56, 101787.
O que esta referência representa: traz o pertencimento para dentro da pergunta. Algumas crenças podem estar ligadas à identidade social, às fontes em que confiamos e às pessoas com quem nos reconhecemos. Questionar a informação pode, em alguns contextos, ser vivido também como questionamento do grupo. (ScienceDirect)

Siebert, J., & Siebert, J. U. (2024). Enhancing misinformation correction: New variants and a combination of awareness training and counter-speech to mitigate belief perseverance bias. PLOS ONE, 19(2), e0299139.
O que esta referência representa: impede que terminemos em fatalismo. Crenças podem persistir depois que a informação original foi retirada, mas essa persistência pode ser reduzida. Continuar acreditando não é destino inevitável. (PLOS)

BrainLatam. (2026). Sentir é verdadeiro. Mas não prova que a crença é verdade.
O que esta referência representa: talvez seja a chave mais importante para permanecermos juntos no texto. A experiência não precisa ser negada para que uma interpretação possa ser revista. Podemos preservar a dignidade do sentir e, ao mesmo tempo, permitir que a realidade nos contrarie. (brainlatam)

W40/2026 - Calor Latente, Homeostase e Metanoia




#eegmicrostates #neurogliainteractions #eegmicrostates #eegnirsapplications #physiologyandbehavior #neurophilosophy #translationalneuroscience #bienestarwellnessbemestar #neuropolitics #sentienceconsciousness #metacognitionmindsetpremeditation #culturalneuroscience #agingmaturityinnocence #affectivecomputing #languageprocessing #humanking #fruición #wellbeing #neurophilosophy #neurorights #neuropolitics #neuroeconomics #neuromarketing #translationalneuroscience #religare #physiologyandbehavior #skill-implicit-learning #semiotics #encodingofwords #metacognitionmindsetpremeditation #affectivecomputing #meaning #semioticsofaction #mineraçãodedados #soberanianational #mercenáriosdamonetização
Author image

Jackson Cionek

New perspectives in translational control: from neurodegenerative diseases to glioblastoma | Brain States