Jackson Cionek
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A Droga de Acreditar - Quando a narrativa oferece um coquetel emocional

A Droga de Acreditar - Quando a narrativa oferece um coquetel emocional

Medo, recompensa, reconhecimento e pertencimento: quem está recebendo o valor produzido pela nossa atenção?

Você já sentiu prazer em ter razão?

Imagine publicar uma opinião e receber centenas de mensagens concordando com você.

Alguém escreve: “Finalmente uma pessoa que entende!”

Você sente satisfação, reconhecimento, talvez pertencimento.

Agora imagine encontrar uma informação que contradiz aquilo que publicou.

O que acontece em seu corpo?

Curiosidade? Desconforto? Uma vontade imediata de defender sua posição?

Talvez você esteja protegendo também as emoções associadas àquela narrativa.

Quero investigar essa experiência com você.

E se acreditar oferecesse um coquetel emocional tão confortável que deixássemos de perceber outras possibilidades?

O problema não está em sentir. Está em compreender como nossas emoções participam daquilo que aprendemos a considerar verdadeiro.

O sentir testemunha a consciência, não a verdade

Imagine acordar assustado depois de um sonho.

Seu coração acelera. A respiração muda. O medo participa intensamente de sua experiência.

Entretanto, o acontecimento sonhado pode nunca ter ocorrido fora dela.

Na interpretação filosófica BrainLatam, o sentir testemunha nossa experiência consciente de Ser.

Mas a intensidade dessa experiência não comprova a interpretação que construímos sobre sua origem.

O sentir testemunha a consciência, mas não a verdade da narrativa que acompanha o sentimento.

Essa distinção permite acolher emoções e continuar investigando os acontecimentos.

Nosso Corpo-Território sente, aprende, interpreta e transforma suas possibilidades.

O coquetel emocional não é uma droga química

Quando antecipamos uma recompensa, nosso organismo participa de processos de motivação e aprendizagem.

A dopamina possui funções importantes na sinalização de erros de previsão, na aprendizagem e na motivação.

Ela não é simplesmente uma substância do prazer.

O medo envolve outros processos neurais, autonômicos e hormonais. O reconhecimento social acrescenta expectativas e relações afetivas.

Chamamos essa combinação de coquetel emocional como metáfora.

Acreditar não equivale a apresentar dependência química. A fé pode sustentar cuidado, solidariedade e criação.

A questão está na possibilidade de uma narrativa concentrar nossas expectativas, emoções e decisões.

Como reconhecer o conforto de acreditar e continuar disponíveis para aprender?

Quando o medo nos faz pensar rápido

Imagine receber uma notícia assustadora.

Antes de compreendê-la completamente, você já sente necessidade de agir.

O medo pode favorecer respostas rápidas diante de ameaças percebidas.

A repetição também pode facilitar respostas automáticas, tornando familiares determinados caminhos de interpretação.

São processos diferentes. Nenhum deles elimina necessariamente nossa capacidade de refletir.

A distinção popularizada em Rápido e devagar, de Daniel Kahneman, ajuda a perceber tendências entre julgamentos automáticos e avaliações deliberadas.

Agora imagine uma sequência de notícias que despertem continuamente medo ou indignação.

Você responde rapidamente a uma, depois a outra.

Em qual momento conseguimos investigar o significado e a relevância daquilo que estamos sentindo?

A repetição pode produzir conformidade

Imagine ouvir a mesma afirmação todos os dias.

Ela aparece nos vídeos, nas conversas e nas mensagens de seus amigos.

Com o tempo, torna-se familiar.

A psicologia investiga o efeito de verdade ilusória: certas afirmações repetidas podem parecer mais verdadeiras pela familiaridade adquirida.

O reconhecimento coletivo acrescenta outra experiência.

Talvez concordar mantenha sua posição dentro do grupo.

Talvez discordar provoque receio de perder pertencimento.

Podemos aprender por repetição e construir relações valiosas por meio de experiências compartilhadas.

Mas a familiaridade não substitui a verificação, assim como a concordância coletiva não comprova uma afirmação.

O experimento latino-americano da confirmação

Em 2024, Natalia Aruguete, pesquisadora argentina, e colaboradores publicaram um experimento envolvendo participantes da Argentina, Brasil, Chile e Colômbia.

Os pesquisadores apresentaram correções factuais com diferentes enquadramentos.

Uma formulação confirmava uma informação verdadeira. Outra refutava uma informação falsa equivalente.

O conteúdo factual era semelhante, mas as respostas mudaram.

A apresentação afirmativa produziu maior engajamento e emoções autorrelatadas mais positivas.

Esse resultado mostra como a forma de apresentar uma informação pode modificar nossa disposição para interagir com ela.

Uma mesma realidade pode produzir experiências emocionais diferentes conforme a narrativa que a apresenta.

Isso nos convida a distinguir evidência, interpretação e sentimento.

A tela oferece o próximo estímulo

Agora volte ao seu celular.

Um vídeo desperta medo. Outro produz indignação. O seguinte oferece alívio.

Você continua deslizando a tela.

A plataforma pode utilizar sinais de interação para recomendar novos conteúdos.

Seu tempo de atenção possui valor econômico.

Uma câmera selecionou imagens, alguém editou palavras e sistemas digitais organizaram sua apresentação.

Nossa percepção já é um recorte da realidade.

Na tela, percebemos o recorte do recorte.

Aquilo que recebe destaque pode ganhar prioridade atencional sem necessariamente ter maior relevância para nossa existência.

Nem tudo que conquista nossa atenção merece ocupar o centro de nossa vida.

Estamos vivendo os problemas de quem?

Quero perguntar algo diferente.

Quanto das informações que despertaram suas emoções hoje tem relação com a água que você bebe, seu alimento, sua saúde e as pessoas com quem convive?

Talvez tenha acompanhado uma disputa entre bilionários, celebridades ou grandes empresas.

Esses assuntos podem possuir consequências sociais reais e merecer investigação.

Mas também podemos receber conteúdos escolhidos principalmente por sua capacidade de produzir engajamento.

Enquanto isso, problemas próximos permanecem sem destaque.

Nossa atenção pode estar produzindo valor para interesses distantes enquanto possibilidades importantes do nosso Bioma deixam de ser percebidas.

E se começássemos a investigar onde nossa atenção pode produzir valor pessoal, social e ecológico?

O Homem de Madeira encontrou sua recompensa

Nosso Homem de Madeira aprendeu imitando narrativas.

Encontrou amigos, reconhecimento e segurança.

Cada confirmação pode fortalecer a familiaridade com suas crenças.

Na BrainLatam, investigamos essa estabilidade como um ótimo local semântico-afetivo.

A narrativa pode tornar-se parte rígida de sua identidade.

Em nossa metáfora da fé cega, questionar uma crença passa a ser experimentado como ameaça ao próprio Ser.

O seguidor deixou de Ser.

Mas nosso personagem pode conhecer outras experiências, transformar interpretações e continuar pertencendo.

Sua história não precisa determinar todas as possibilidades de seu amanhã.

O Homem de Milho volta a perceber o Bioma

Na interpretação BrainLatam inspirada pelo Popol Wuj, o Homem de Barro acredita pertencer a uma ordem superior.

O Homem de Madeira segue narrativas.

O Homem de Milho reconhece sua existência no alimento, na cultura, no aprendizado e nas relações.

Ele também recebe notícias. Também sente medo e curiosidade.

Mas volta a perceber o território onde vive.

Como está a água? Como vivem seus vizinhos? O que pode melhorar na alimentação, na saúde e no ambiente?

O Bioma participa da produção de sua própria existência.

O Homem de Milho não ignora o mundo. Ele investiga como o mundo participa de seu território e onde suas ações podem produzir valor compartilhado.

Na Mata Atlântica, a percepção encontrou movimento

Entrei na Mata Atlântica descalço, vestindo apenas um calção.

Encontrei raízes, galhos e vegetação emaranhada.

Protegia minha pele enquanto procurava preservar cada ramo.

Em determinados momentos, precisei rastejar.

Minhas mãos encontravam apoios. Meus pés reconheciam texturas.

Cada movimento revelava outra possibilidade.

Ali experimentei um princípio:

Perceber o que se pode.

O território não repetia sempre a mesma passagem.

Meu Corpo-Território aprendia a cada movimento.

Talvez possamos encontrar uma liberdade semelhante diante das narrativas digitais: ampliar nossas experiências e descobrir outros caminhos para a atenção.

Jiwasa: o prazer de construir juntos

Ailton Krenak, em Futuro ancestral, convida a perceber o futuro na continuidade das relações que sustentam a vida.

Silvia Rivera Cusicanqui investiga conhecimentos e práticas coletivas produzidos em experiências territoriais.

Na BrainLatam, chamamos de Jiwasa nossa investigação sobre agência compartilhada.

O Homem de Milho pertence e continua aprendendo.

Nosso Corpo-Território constitui, nessa proposta, a unidade mínima e parte indivisível do Estado.

A IA Personalíssima, o Drex Cidadão e o Rendimento Bioma integram possibilidades de participação na interpretação de dados, na economia e na sustentação da vida.

A Produção de Excessos convida a investigar o valor social e ambiental daquilo que produzimos.

A atenção pode tornar-se participação na transformação coletiva.

Transcender-se Ser: para onde irá nossa próxima atenção?

Volte àquela opinião que publicou.

Você recebeu reconhecimento e sentiu satisfação.

Agora encontra um conhecimento que amplia sua interpretação.

Pode acolhê-lo.

Deixa vir → Deixa ficar → Deixa Ser → Pode desobedecer → Deixa ir.

Na interpretação estendida BrainLatam do Yãy hã mĩy, imitar também pode abrir possibilidades de transcender-se Ser.

Somos herdeiros do passado, participantes do presente e corresponsáveis pelos futuros que tornamos possíveis para os próximos Corpos-Territórios.

Talvez exista algo tão valioso quanto o prazer de ter razão:

O prazer de descobrir que podemos aprender, transformar nossa percepção e continuar pertencendo.

Antes do próximo vídeo, experimente perguntar:

O que estou aprendendo, que possibilidades essa informação oferece e para quem minha atenção está produzindo valor?

Referências latino-americanas comentadas — pós-2021

Natalia Aruguete, Flavia Batista, Ernesto Calvo, Matias Guizzo-Altube, Carlos Scartascini e Tiago Ventura (2024). Framing fact-checks as a “confirmation” increases engagement with corrections of misinformation: a four-country study. Scientific Reports, 14, 3201.

Estudo experimental com participantes da Argentina, Brasil, Chile e Colômbia. Demonstra como apresentar informações por meio de confirmação ou refutação pode alterar engajamento e reações emocionais, mesmo quando os conteúdos são factualmente equivalentes. É a principal referência empírica para o coquetel emocional da confirmação.

Cetic.br / NIC.br / CGI.br (2025). TIC Kids Online Brasil 2025.

A pesquisa brasileira revela a presença intensa de dispositivos digitais e ferramentas de IA no cotidiano de crianças e adolescentes. Entre os usuários de internet de 9 a 17 anos, 65% haviam utilizado IA generativa, inclusive para estudar, criar conteúdos ou conversar sobre emoções. Contribui para examinar a relação entre atenção, aprendizagem e mediação tecnológica.

Cetic.br / NIC.br / CGI.br (2024). TIC Kids Online Brasil 2024.

Investiga a frequência de acesso às plataformas digitais por crianças e adolescentes brasileiros. Fornece contexto sobre a repetição de encontros com ambientes de mensagens, vídeos e redes sociais, sem pressupor que todo uso frequente produza dependência.

Ailton Krenak (2022). Futuro ancestral. Companhia das Letras.

O pensador indígena brasileiro relaciona existência, rios, ancestralidade e continuidade da vida. Oferece um contraponto à captura da atenção por acontecimentos distantes, convidando à percepção dos vínculos concretos que constituem nossos territórios.

Silvia Rivera Cusicanqui, em diálogo com Paola Lopes Zamariola, Ana Carolina Abreu, Dodi Leal e José Miguel Neira (2024). Campo Abierto: conversas sobre prácticas y discursos descolonizadores con Silvia Rivera Cusicanqui. Rebento.

O diálogo com a socióloga boliviana aproxima afetividade, práticas coletivas, territorialidade e produção de conhecimentos. Enriquece a proposta de que atenção e aprendizado possam produzir transformações situadas na vida compartilhada.

BrainLatam (2026). Jiwasa — pertencer sem permanecer na mesma posição.

Desenvolve a proposta de agência compartilhada e a possibilidade de transformar-se sem abandonar o pertencimento. Oferece continuidade filosófica à reflexão sobre reforço social, conformidade e autonomia.

BrainLatam (2025). Yãy hã mĩy — Imitar-se Ser para Transcender-se Ser.

Apresenta a interpretação filosófica estendida sobre imitação, aprendizagem e transformação do Ser, em diálogo com conhecimentos Tikmũ'ũn/Maxakali.

O Blog 07 fica estruturado em torno de uma distinção: o que desperta emoção e recebe atenção não é necessariamente aquilo que produz mais valor para nossa existência.

A passagem do Homem de Madeira para o Homem de Milho representa a possibilidade de sair da repetição de narrativas e perceber novamente o próprio Corpo-Território, seu Bioma e suas relações. Essa é a ligação conceitual com o próximo tema da série: Transcender-se Ser - posso deixar uma narrativa sem perder meu pertencimento?

BRAINLATAM · W43/2026 · O PROBLEMA DOS 3 CORPOS





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Jackson Cionek

New perspectives in translational control: from neurodegenerative diseases to glioblastoma | Brain States