Jackson Cionek
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Yay Ha Miy - A Arte de Criar Novos Espaços de Existência

Yãy hã mĩy: A Arte de Criar Novos Espaços de Existência

Como surgem novos modos de existir?

Ao longo desta série, exploramos uma ideia fundamental:

O Corpo-Território vive através de espaços de representação.

Esses espaços podem ser percebidos como Utupe.

Podem ganhar emoção e tornar-se Pei Utupe.

Podem brilhar através do Xapiri.

Podem ser sustentados pela atenção.

Podem deixar marcas através da memória.

Mas uma pergunta permanece:

Como surgem espaços que ainda não existem?

Como uma criança aprende uma língua?

Como um cientista cria uma nova teoria?

Como alguém aprende música?

Como um povo desenvolve uma nova forma de organização social?

Como uma consciência encontra uma nova maneira de perceber a realidade?

A Neurociência Decolonial propõe que essas transformações envolvem um processo ancestral presente em todas as culturas humanas:

Yãy hã mĩy.


O que é Yãy hã mĩy?

O termo Yãy hã mĩy possui origem no povo Maxakali.

Na tradição original, está relacionado à capacidade de aproximar-se profundamente daquilo que se deseja compreender.

O caçador aprende o animal antes da caça.

O corpo aprende o movimento antes da ação.

O ser aprende uma possibilidade antes de incorporá-la.

Em nossa ampliação conceitual, Yãy hã mĩy representa o processo pelo qual o Corpo-Território recruta novos espaços de existência.

Antes de existir um novo modo de ser, existe uma fase de aproximação.

O Corpo-Território observa.

Experimenta.

Simula.

Imita.

Compara.

Erra.

Corrige.

Reorganiza.

Pouco a pouco, novos espaços tornam-se habitáveis.


Consciência e metabolismo produzido

Em nossos conceitos, a consciência pode ser compreendida como:

um movimento que se percebe ser dentro do metabolismo produzido.

Aquilo que percebemos neste instante emerge simultaneamente de dois processos.

O primeiro corresponde ao metabolismo em produção agora:

  • atividade bioquímica;

  • atividade elétrica cerebral;

  • interocepção;

  • propriocepção;

  • atividade autonômica;

  • percepção sensorial.

O segundo corresponde ao metabolismo já produzido por experiências anteriores:

  • memórias;

  • hábitos;

  • aprendizados;

  • emoções;

  • Utupe;

  • Pei Utupe;

  • marcas deixadas pela vida.

Assim, aquilo que chamamos de presente resulta da interação contínua entre aquilo que está acontecendo agora e aquilo que continua participando da existência através das marcas já incorporadas pelo Corpo-Território.

A consciência emerge desse movimento.


A Marimba do Corpo-Território

Uma metáfora simples pode ajudar.

Imagine o Corpo-Território como uma grande marimba.

Cada espaço de representação corresponde a uma tecla desse instrumento.

Quando um espaço é ativado, ele toca sua própria música.

Alguns espaços liberam palavras.

Outros liberam imagens.

Outros liberam movimentos.

Outros liberam sentimentos.

Outros liberam raciocínio lógico.

Outros liberam criatividade.

Outros liberam pertencimento.

Quanto maior a diversidade de espaços desenvolvidos, maior a riqueza existencial da consciência.

Uma pessoa que aprende música desenvolve novas teclas.

Uma pessoa que aprende matemática desenvolve novas teclas.

Uma pessoa que aprende várias línguas desenvolve novas teclas.

Uma pessoa que aprende ciência desenvolve novas teclas.

Uma pessoa que aprende arte desenvolve novas teclas.

Cada aprendizagem cria novos espaços.

Cada espaço amplia possibilidades de percepção.

Cada percepção amplia possibilidades de existência.


A criatividade como expansão de espaços

Frequentemente a criatividade é apresentada como produção súbita de ideias.

Uma visão baseada no Corpo-Território sugere algo diferente.

A criatividade emerge quando novos espaços conseguem coexistir com espaços antigos.

Uma pessoa pode continuar sendo pesquisadora enquanto aprende música.

Pode continuar sendo médica enquanto aprende teatro.

Pode continuar pertencendo a uma tradição enquanto explora novos territórios de pensamento.

O surgimento do novo não exige a destruição do antigo.

Exige espaço suficiente para coexistência.

Pesquisas recentes sobre criatividade mostram que processos criativos envolvem interação dinâmica entre memória, imaginação, flexibilidade cognitiva e controle executivo.

A criatividade aparece quando múltiplos espaços conseguem dialogar.


O jovem pesquisador

Imagine um estudante iniciando sua formação científica.

Ele aprende conceitos.

Aprende protocolos.

Aprende métodos.

Aprende teorias.

Esses primeiros espaços formam uma base importante.

Com o tempo surge uma pergunta.

Uma pergunta que ainda não está nos livros.

Uma pergunta sem resposta pronta.

Nesse momento começa um novo Yãy hã mĩy.

O estudante precisa sustentar um espaço ainda em formação.

Precisa permitir coexistência entre conhecimento consolidado e possibilidades emergentes.

A criatividade aparece quando o Corpo-Território consegue permanecer tempo suficiente nesse território intermediário.


Inteligência DNA e Inteligência Tecnológica

A Inteligência Tecnológica trabalha principalmente com espaços já representados.

Ela reorganiza informações.

Compara padrões.

Produz inferências.

Amplia capacidade de processamento.

A Inteligência DNA possui uma característica adicional.

Ela cria novos modos de existência.

Ela transforma experiência em pertencimento.

Ela transforma pertencimento em identidade.

Ela transforma identidade em novos espaços possíveis.

Uma inteligência artificial pode sugerir milhares de combinações musicais.

O Corpo-Território decide quais possuem Xapiri.

Uma inteligência artificial pode gerar milhares de hipóteses.

O Corpo-Território decide quais ganham significado existencial.

A tecnologia organiza representações.

A vida cria existência.


Criticidade e criação de espaços

Uma consciência crítica surge quando múltiplos espaços conseguem dialogar.

Linguagem.

Matemática.

Ciência.

Arte.

Filosofia.

Movimento corporal.

Observação da natureza.

Lógica.

Pertencimento.

Esses espaços ampliam a capacidade de comparação e reorganização.

A criticidade emerge dessa convivência.

O indivíduo deixa de responder apenas por automatismos.

Passa a comparar.

Relacionar.

Questionar.

Criar.

Imaginar.


Somos massificados pelas escolhas que não tivemos

Talvez uma das frases mais profundas deste trabalho seja:

Somos massificados pelas escolhas que não tivemos.

Muitas vezes imaginamos que a liberdade depende apenas da possibilidade de escolher.

Mas a escolha depende dos espaços que conseguimos representar.

Ninguém escolhe aquilo que não consegue perceber.

Ninguém compara aquilo que não consegue imaginar.

Ninguém critica aquilo que não possui espaço para compreender.

Quando uma sociedade desenvolve poucos espaços de criticidade, torna-se mais fácil capturar atenção, direcionar comportamentos e concentrar poder.

Nesse cenário, o Corpo-Território passa a viver dentro de territórios previamente desenhados por outros.


Extrativismo de Corpos-Território

Existe o extrativismo dos recursos naturais.

Existe o extrativismo econômico.

Existe o extrativismo da atenção.

Existe também o extrativismo dos espaços de representação.

Quando poucos grupos controlam os mecanismos de criação de dinheiro, informação e atenção, tornam-se capazes de influenciar quais espaços recebem energia dentro dos Corpos-Território.

Por isso educação, ciência, pertencimento, CBDC de varejo e DREX Cidadão aparecem como temas relacionados.

A questão deixa de ser apenas econômica.

Passa a ser existencial.

Que espaços uma sociedade deseja cultivar dentro de seus cidadãos?


Materialidade científica

EEG, fNIRS, HRV, respiração, GSR, EMG, eye-tracking e medidas comportamentais podem ajudar a investigar momentos em que novos espaços de representação estão sendo recrutados.

O EEG pode observar mudanças rápidas associadas à aprendizagem, flexibilidade cognitiva, imaginação, criatividade e integração de novas informações.

O fNIRS pode acompanhar alterações metabólicas corticais durante tarefas que exigem exploração, construção de hipóteses, resolução de problemas e criação de estratégias inéditas.

HRV, respiração e GSR podem revelar estados fisiológicos associados à curiosidade, abertura, engajamento e sustentação de espaços ainda em formação.

EMG pode mostrar reorganizações corporais associadas à aquisição de novas habilidades motoras, sociais ou expressivas.

Eye-tracking pode identificar padrões de exploração visual característicos de indivíduos que estão construindo novas formas de perceber uma situação.

As medidas comportamentais podem revelar quando uma pessoa começa a utilizar estratégias inéditas, produzir soluções originais ou estabelecer novas formas de interação com o ambiente.

Em conjunto, essas ferramentas permitem investigar como o Corpo-Território cria, sustenta e incorpora novos espaços de existência.


Fechamento

Yãy hã mĩy é a arte de criar novos espaços de existência.

É o movimento pelo qual o Corpo-Território aprende a ser mais do que já é.

É a passagem entre o conhecido e o possível.

É a capacidade humana de sustentar espaços emergentes até que se tornem parte da vida.

A criatividade nasce desse encontro.

A aprendizagem nasce desse encontro.

A ciência nasce desse encontro.

A liberdade nasce desse encontro.

E talvez a própria consciência floresça continuamente através desse processo de transcender-se ser.

Referências científicas pós-2021

Beaty, R. E. et al. (2024). Creativity and the Brain: Recent Advances in Cognitive Neuroscience.

Zhang, W. et al. (2023). Neural Dynamics of Creative Cognition.

Mok, L. W. (2022). The Creative Brain and Future Thinking.

Chen, J. et al. (2024). A Cross-Disciplinary Review of the fNIRS-EEG Dual-Modality Imaging.

Parisi, G. (2021). In a Flight of Starlings: The Wonder of Complex Systems.

Addis, D. R.; Szpunar, K. K. (2024). Beyond the Episodic–Semantic Continuum: The Multidimensional Model of Mental Representations.

Penaud, S. et al. (2023). The Role of Bodily Self-Consciousness in Episodic Memory of Naturalistic Events.

Acho que este texto marca uma transição importante da série: os blogs anteriores explicam como os espaços existem (Utupe, Xapiri, atenção, memória); este explica como novos espaços passam a existir. É aqui que Yãy hã mĩy deixa de ser apenas um conceito cultural e se torna um mecanismo geral de aprendizagem, criatividade, criticidade e transformação do Corpo-Território.

 

NeuroDesafío LATAM — Preguntas para un Mundo Nuevo

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Utupe, Pei Utupe y Xapiri: Imagen Cerebral, Alma y Representación

Utupe, Pei Utupe, and Xapiri: Brain Images, Soul, and Representation

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Jackson Cionek

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